Michele Moura Teixeira
Graduanda em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Santa Cruz. E-mail: michellebr_br@yahoo.com.br.
Thiana de Souza Cairo
Mestranda em Cultura & Turismo pela Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e Universidade Federal da Bahia (UFBA). Economista. Professora do Departamento de Economia da Universidade Estadual de Santa Cruz. E-mail: ticairo@bol.com.br.
RESUMO: O presente trabalho teve como objetivo geral verificar os aspectos que visam conciliar a atividade turística com a preservação do meio ambiente na APA de Tinharé/Boipeba na Vila de Morro de São Paulo para o seu desenvolvimento turístico sustentável. Buscou-se também analisar se o programa desenvolvido pela APA vem atendendo aos preceitos de turismo sustentável, bem como verificar as condições da infra-estrutura existente na vila para a melhoria da atividade turística. Utilizou-se no referencial teórico da pesquisa, abordagens concernentes ao turismo sustentável, desenvolvimento sustentável e turismo e meio ambiente. No que tange aos aspectos metodológicos, os dados coletados foram obtidos a partir de entrevistas junto aos órgãos públicos e a comunidade local. O método de abordagem e procedimento utilizado foi o descritivo e o estudo de caso. Dos resultados obtidos, verificou-se que o turismo em Morro de São Paulo não atende ainda aos preceitos de turismo sustentável. Enfim, acredita-se que para a consecução do desenvolvimento sustentável na vila, deverão ser atendidos os objetivos de proteção e preservação ambiental, bem-estar e a melhoria da qualidade de vida da comunidade residente, a satisfação das necessidades e expectativas do turista e as integrações econômicas locais e regionais, levando-se em conta os pilares da sustentabilidade econômica, ambiental, social e cultural.
PALAVRAS-CHAVE: desenvolvimento sustentável; turismo e meio ambiente; infra-estrutura turística; turismo e comunidade.
ABSTRACT: The current research had as a general goal checking the aspects/points that aims at balancing the touristic activity with the preservation of the environment in the APA of Tinharé/Boipeba in Morro de São Paulo Village to its touristic sustainable development. It was also searched if the developed program in APA has been providing the main concepts of sustainable tourism, as well as checking the conditions of the main-base that is already in the village in order to improve the touristic activity. In the theorical reference of the research, it was used points of view concerned to the sustainable tourism, sustainable development and tourism and enviromment. The methodological aspects, data were collected from primary and secondary sources. The primary sources were gotten from interviews on public places and at the local community, and the secundary sources through magazines, books, monographies and in articles and paper related to the topic. The method of exploring and the producere used was the description and the studies of cases. It was checked from the results gotten, that the tourism in Morro de São Paulo still doesn’t provide the main concepts of the sustainable tourism. At last, it is believed that to execute the sustainable development at the village, it will need to provide the goals of environmental protection and saving, welfare and the improvement of the quality of life of the local community, as well as the satisfaction of the needs and hopes of the tourist and both local and regional economic integration, valuing the bases of the economic, environmental, social and cultural sustainability.
KEY-WORDS: Maintainable development; tourism and environment; infra structures tourist; tourism and community.
1. INTRODUCÃO
O turismo pode ser considerado um conjunto de atividades econômicas diversas que englobam transportes, os meios de hospedagem, as agências de viagens e as práticas de lazer, além de outras tantas ações mercadológicas que produzem riquezas e geram empregos para muitas regiões.
Assim, a atividade turística é um dos fenômenos mais marcantes e expressivos, pois movimenta em nível mundial, um enorme volume de pessoas e de capital, inserindo-se materialmente de forma cada vez mais significativa ao criar e recriar espaços diversificados.
Quem viaja, por lazer ou por necessidade, precisa receber o conforto proporcional ao custo de seu contrato e à qualidade dos bens e serviços que deseja receber sendo turista ou não.
Andrade (1999) afirma que é impossível satisfazer a natureza do homem sem atender às seguintes necessidades: proteção, repouso, higiene, alimentação, privacidade e tranqüilidade, sendo estes requisitos que formam os fundamentos teóricos e ideais de moradia ou residência.
O turismo tem um importante papel para o crescimento de várias economias e regiões, pois com o fluxo de pessoas para determinados locais, ocorre um incremento das necessidades de maior produção de bens e serviços, provocando na economia um efeito multiplicador, gerador de empregos, impostos e de uma rede de serviços de apoio das mais variadas áreas que movimentam os recursos materiais e humanos.
Destarte, a atividade turística deve ser vista como um empreendimento que necessita de divulgação, promoção e ampliação de estratégia para comercialização, pois, se as belezas naturais atraem os turistas da mesma forma é preciso melhorar os serviços oferecidos tornando-o mais atraente. Esses recursos que são artificiais têm custos e necessitam de permanentes cuidados de atualização para enfrentar a concorrência e satisfazer a demanda.
O turismo é uma força econômica das mais importantes, uma vez que ocorrem fenômenos de consumo, originam-se rendas e criam-se mercados. Os resultados do movimento financeiro, decorrentes do turismo são expressivos e justificam que esta atividade seja incluída na programação de política econômica de todos os países. Assim, o turismo que era para muitos uma atividade secundária, passou a receber atenção especial em razão de ser uma fonte geradora de receitas e a exigir metódica e delicada manipulação, consolidando-se dentro do conceito de “indústria normal” (BENI, 1998).
Ao longo das últimas décadas o turismo se diversificou. Surgiram vários tipos no qual leva - se em consideração demandas diferenciadas de classes sociais, faixa etária, renda entre outros. Tendo como: aventura, ecológico, negócios, eventos, lazer, cultural, religioso e esportivo, os motivos para o deslocamento de acordo com a procura dos visitantes. Essa diversificação do produto turístico tem sido fundamental para inserir certas regiões no roteiro do turismo nacional e internacional.
De fato, alguns tipos de turismo vêm proporcionando a revitalização de áreas decadentes e estagnadas economicamente, bem como na preservação ambiental e cultural dessas áreas. O Brasil, um país rico em belezas naturais, possui uma cultura diversificada, um clima agradável, no que atrai muitos visitantes pena que não sabe utilizar seu potencial, entretanto poderia investir em propaganda, marketing, mostrando o seu litoral que é muito lindo, sua cultura variada, a sua fauna e flora que torna o turismo bastante atrativo .
Na última década fortaleceram-se as preocupações com a adoção de práticas mais favoráveis que contemplem uma melhor relação com o meio ambiente, emergindo assim, o turismo sustentável.
Por possuir atrativos naturais e culturais a Bahia, atrai turistas de todo Brasil e também estrangeiros que procuram descanso, tranqüilidade, lazer e sol tornando assim o Estado um grande pólo turístico.
No litoral sul do Estado da Bahia o balneário do Morro de São Paulo, localizado no município de Cairu - Bahia possui um litoral bastante recortado, com a presença de morros, recifes e ilhas. O local apresenta um rico complexo estuário, sendo formada pelo encontro do oceano com diversos rios e riachos, sua vegetação é praticamente antropizada, com remanescente primário de mata atlântica, além de restingas e manguezais. A fauna é bastante diversificada, com destaque para avefauna migratória (CRA, 2002).
A Área de proteção ambiental (APA) do Morro de São Paulo é uma unidade de conservação que tem como objetivo conciliar às atividades humanas com a preservação da vida silvestre, a proteção dos recursos naturais à melhoria da qualidade de vida da população, através de um trabalho conjunto entre organismos públicos e privados com a participação ativa da comunidade.
Com todos estes atrativos, suscita nas pessoas o desejo de desfrutar das belezas naturais que Morro de São Paulo oferece, transformando essa prática em uma rentável atividade econômica.
Nesse sentido, acredita-se que o turismo se apresenta como uma alternativa sócio – econômica da Vila de Morro de São Paulo, localizada no Estado da Bahia, com características sustentáveis, na medida em que apresenta um papel social (geração de empregos), ecológico( não agride o meio ambiente) e econômico ( é rentável – efeito multiplicador).
Segundo o Centro de Recursos Ambientais - CRA, a administração da APA além de fiscalizar a área, promove junto a associações de moradores da APA encontros e seminários como instrumentos de conscientização dos recursos naturais existentes no conjunto de ilhas, além de promover mutirões para a retirada de lixo das praias. O trabalho de informação ambiental vem se fortalecendo e inovando técnicas para a sua propagação, baseada na gestão participativa dos recursos naturais.
Devido a todos estes atributos, uma série de indagações torna-se pertinentes neste estudo, tais como: De que maneira as iniciativas e trabalhos realizados pela administração da APA em Tinharé/Boipeba têm contribuído na promoção do turismo sustentável na vila do Morro de São Paulo? Qual a situação atual do turismo no que se refere a sua infra-estrutura? O turismo desenvolvido tem sido capaz de conciliar a atividade turística com a preservação do meio ambiente no Morro de São Paulo?
Diante do exposto, buscou-se nesta pesquisa, verificar a viabilidade e compatibilização da exploração econômica, no que se refere à atividade turística, com a preservação ambiental, no que tange as práticas exercidas pela administração da APA de Tinharé /Boipeba. Para tanto, coletou-se os dados a partir de entrevistas, junto à administração da APA, associações: de moradores, de artesãos, de pousadas e hotéis e os seguintes órgãos públicos: secretaria de turismo, prefeitura municipal, delegacia de polícia, ong’s entre outros.
Para analisar a pesquisa foi usado o método descritivo que utiliza técnicas padronizadas de coleta de dados como questionário e a observação sistemática e o estudo de caso que envolve exame de registros, observação de ocorrência de fatos, entrevistas estruturadas e não estruturadas ou qualquer outra técnica de pesquisa. As variáveis selecionadas envolveram a análise dos programas desenvolvidos pela APA e os aspectos da infra-estrutura no Morro de São Paulo.
2. Aspectos sobre o Turismo Sustentável, Desenvolvimento Sustentável e Turismo e Meio Ambiente.
O turismo sustentável, segundo Tôrres (2001 p.3) citando Coutinho & Selva (1999,s.p) tem como objetivo a busca da integração do uso turístico com eficiência econômica à proteção do ambiente e à melhoria das condições de vida das comunidades locais, a partir de discussões e propostas de formatação do turismo ecologicamente viável, socialmente justo, com base na realidade local e no planejamento participativo.
Para se ter um turismo de qualidade, existem alguns pontos que devem ser considerados: evitar as grandes concentrações turísticas e urbanização excessiva, integrar o turismo ao meio ambiente mediante uma arquitetura adaptada, preservar e valorizar os patrimônios naturais, históricos e culturais, participar as comunidades locais e conseguir a consciência da população local e do turista em relação à necessidade de proteger as riquezas naturais e o patrimônio (PAGANI & SCHIAVETTI, 1999), citado por TÔRRES (2001, p.13).
Ao desenvolver o turismo sustentável, é necessário respeitar a capacidade de absorção para poder manter a qualidade do ambiente e a satisfação do visitante. O turismo ambiental, ao que alguns conceituam como turismo sustentável, tem como pretensão otimizar o desenvolvimento econômico com base local, sob condições que assegurem não só a qualidade dos serviços oferecidos, mas também a salvaguarda do patrimônio, que deve ser mantido, melhorado e restaurado pelos recursos auferidos.
O conceito de sustentabilidade consiste em satisfazer as necessidades presentes sem comprometer a possibilidade das gerações futuras e está ligado a três fatos importantes: qualidade, continuidade e equilíbrio. Segundo Cunha (1997), o turismo será sustentável se tiver como base o tripé: sustentabilidade ecológica, sociocultural e econômica.
O conceito de desenvolvimento sustentável, por sua vez, é entendido pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento como:
Um processo de transformação, no qual a exploração dos recursos, a direção dos investimentos, a orientação da evolução tecnológica e a mudança institucional se harmonizam e reforçam o potencial presente e futuro, a fim de atender às necessidades e aspirações humanas (CMMAD, 1991, p.49).
O desenvolvimento do turismo em particular depende da preservação, da viabilidade de seus recursos de base. Encontrar o equilíbrio entre os interesses econômicos que o turismo estimula e um desenvolvimento da atividade que preserve o meio ambiente não é tarefa fácil, principalmente porque seu controle depende de critérios e valores subjetivos e de uma política ambiental e turística adequada que ainda não se encontrou no Brasil e em vários outros países (RUSCHMANN, 1997).
Assim, entende-se por desenvolvimento sustentável a gestão e administração dos recursos e serviços ambientais e a orientação das mudanças tecnológicas e institucionais, no sentido de assegurar e alcançar a contínua satisfação das necessidades humanas para o futuro, dentro dos limites da capacidade de sustentação dos sistemas ambientais (CAVALCANTI, 1997).
O contato com a natureza constitui, atualmente uma das maiores motivações das viagens de lazer e as conseqüências do fluxo em massa de turistas para esses locais, extremamente sensíveis. Entretanto, pode ter um efeito negativo simbolizando perigo para a região, mais especificamente para vegetação, vida selvagem, poluição do ar e outras manifestações de destruição de vida animal e vegetal.
O meio ambiente é a base econômica da atividade turística e apresenta oportunidades e limitações. O caráter finito da qualidade dos recursos em ambientes naturais e os custos e benefícios de desenvolvimento turístico para as populações e seu meio trazem à tona uma série de conflitos que necessitam ser resolvidos.
O equilíbrio entre promoção e preservação é fundamental. A agressão ao meio em uma visão integral, física e social pode trazer prejuízos severos para um núcleo turístico, muitas vezes irreversível. Por isso as diretrizes do turismo sustentável são imprescindíveis na gestão do turismo (PETROCCHI ,1998).
3. A Atividade Turística no Morro de São Paulo
A comunidade da vila de Morro de São Paulo se beneficia da atividade turística por ser a maior geradora de empregos diretos e indiretos, desde o carregador de produtos aos gerentes de hotéis e pousadas. Neste sentido, segundo informações dos entrevistados, faz-se necessário o oferecimento de cursos para aperfeiçoar a mão-de-obra local que são oferecidos pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial - SENAC com parceira do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - SEBRAE sendo eles: recepcionista, garçom, barman, camareira, garçonete, café da manhã e cozinheira.
A comunidade mencionou que o Sebrae realizou somente um seminário sobre parcerias de liderança e o líder cidadão e também um diagnóstico da área ambiental com interpretação cultural para a comunidade. A prefeitura, por sua vez, realizou um pequeno curso para guias de turismo, o qual não foi suficiente para atender a demanda que trabalha nessa área.
Em relação à preservação ambiental a comunidade tem recebido orientação através das Organizações Não-Governamentais (ONG’s) Baiacu de Espinhos e Coral através de palestras e campanhas nas escolas. No verão, quando a cidade está cheia de turistas, executam o projeto Morro Limpo no qual peneiram a areia das praias, limpam os riachos e solicitam tanto a comunidade como aos turistas que façam a coleta seletiva. Entretanto não é um trabalho permanente, restringindo-se apenas ao verão quando quase triplica o número de turistas que vêem em busca de praia, sol, belezas naturais e paz.
O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA também fez uma orientação para a comunidade, mostrando o que é preciso ser feito para a preservação ambiental da vila, mas não executa trabalhos permanentes, deixando assim a desejar.
Vale ressaltar, que estes cursos de aperfeiçoamento não são realizados com freqüência e não são gratuitos. Geralmente são oferecidos duas vezes por ano, não atendendo a necessidade da vila, uma vez que a capacitação exigida pelo setor turístico é sempre constante, pois o Morro de São Paulo e sua atividade econômica crescem a cada dia, implicando o aumento da oferta de empregos e conseqüentemente a necessidade de qualificação.
No que se refere ao envolvimento da comunidade local com o setor turístico, Cairo (2001) relata que para a consecução do desenvolvimento do turismo, faz-se necessário combinar esforços do governo, com os da iniciativa privada e da comunidade. Dessa forma, a sociedade deve passar por um processo de conscientização acerca da importância do turismo para a projeção do crescimento e desenvolvimento econômico, cuja relevância se torna notória quando são analisados os principais benefícios oriundos da atividade turística. Este setor, se encarado com seriedade, tornará um destino mais competitivo em relação aos demais e aumentará de forma significante a receita nacional.
Ainda segundo a autora supra, o grande diferencial hoje quando se pensa em boa prestação de serviços, tendo como foco clientes distintos, como é o caso do turismo, é sem dúvida um atendimento eficiente, seguido de produtos com qualidade apreciável. O elemento humano pode ser considerado o alicerce de uma empresa, mas este não terá êxito se não acompanhado dos elementos que permitam a consecução de um trabalho satisfatório.
Enfim, percebe-se que a comunidade na Vila do Morro de São Paulo carece ainda, de uma maior capacitação e profissionalização no setor turístico, para assim harmonizar os interesses existentes entre turistas e a comunidade receptora.
No que diz respeito a estudos ligados aos impactos ambientais na área protegida, nota-se que são quase inexistentes e os que são desenvolvidos apresenta pouca aplicabilidade, bem como não há um acompanhamento constante do próprio centro de recursos ambientais (CRA) responsável pela APA de Tinharé/Boipeba, segundo informações dos entrevistados.
Observa-se que é evidente a necessidade de preservação ambiental, onde a Prefeitura Municipal de Cairu possui na Lei Orgânica Municipal, diversos artigos voltados a esta temática. Entretanto, no que tange a própria APA de Tinharé/Boipeba é visível à demasiada negligência aos estudos ambientais.
Apesar da ainda incipiente preocupação ambiental, algumas iniciativas foram mencionadas pelos entrevistados como: o Departamento de Estradas de Rodagem da Bahia - DERBA fez um estudo para avaliar as condições da implantação de uma estrada no Morro de São Paulo; a Companhia de Desenvolvimento Urbano do Estado da Bahia - CONDER tem um estudo de um mini aterro sanitário e o projeto de obra para a construção de uma estrada em andamento que liga o Zimbo (localizado na quarta praia) a segunda praia.
De acordo com informações do Presidente da Associação de Moradores da Fonte Grande, a Prefeitura de Cairu está fazendo um remanejamento para o estudo da APA tentando minimizar os impactos ambientais que vem ocorrendo em Morro de São Paulo.
Porém, não existe nenhum órgão responsável pela preservação do patrimônio histórico-cultural e natural da vila. Os moradores juntamente com a Associação da Fonte Grande, foram os responsáveis pela reforma no teto da Igreja Nossa Senhora da Luz, pois ao buscarem ajuda dos órgãos competentes como a Unesco, Governos do Estado entre outros, não lograram sucesso. Assim, eles mesmos providenciaram um novo forro. Entretanto, uma vez concluída a reforma do teto a Unesco recusou-se a fazer o tombamento e conseqüentemente as demais reformas necessárias, alegando a interferência de pessoas não autorizadas. Os demais monumentos, como o Farol e o Forte, não têm a devida manutenção, sendo que a pintura de um deste, foi feita pela própria comunidade.
Na área de preservação ambiental de Morro de São Paulo não existem quaisquer placas de sinalização indicando as espécies vegetais e animais encontrados naquela região; ou até mesmo indicando aos turistas aonde eles podem passear e/ou encontrar o que desejam. Enfim, se eles não perguntarem ficarão totalmente perdidos no local, demonstrando a extrema necessidade de placas de sinalização turística na vila para facilitar a vida dos turistas que ali passeiam. Também não é realizado nenhum trabalho de conscientização dos turistas que vão conhecer uma área de proteção ambiental. Os folder, folhetos ou até mesmo sacos plásticos são distribuídos apenas em determinados períodos, quando há campanha para preservar o verde ou só no verão, revelando a falta de respeito à comunidade que sobrevive do turismo. Por parte dos agentes turísticos só uma única pousada, chamada “Tia Glória” distribui entre seus hóspedes saquinhos plásticos, para que eles não joguem lixo no chão durante os passeios que fazem na ilha.
Os crimes ambientais mais comuns praticados são as queimadas e/ou corte de árvores em florestas de preservação ambiental, bem como a pesca em local interditado (determinado pelo órgão competente – IBAMA). Informou-se também que uma parte do manguezal está sendo destruída por um grande empreendimento hoteleiro, bem como as construções irregulares feitas na faixa da orla. Tem-se, ainda a contaminação do lençol freático originado pelos resíduos finais do lixo da comunidade como um todo, a retirada de pedras e corais do mar e construções irregulares dentro da mata.
Segundo as estatísticas e informações obtidas junto a Delegacia de Polícia de Cairu, o crime que mais ocorre é a pesca em local interditado, onde de janeiro a junho de 2003 ocorreram aproximadamente 15 crimes.
São poucos os órgãos que se envolvem na fiscalização e combate aos crimes ambientais. A comunidade e as ONG’s tentam amenizar denunciando alguns crimes, procurando o Ibama, a Prefeitura Municipal de Cairu, o Ministério Público e a Delegacia de Polícia. Entretanto, falta ainda uma fiscalização mais rígida, pois os crimes acontecem com bastante freqüência. Os agressores quando identificados são punidos, onde são realizados as apurações dos crimes cometidos e conseqüentemente o encaminhamento dos autos do “inquérito policial e dos termos circunstanciados” • lavrados ao juízo criminal da Comarca de Valença para adoção das providências legais.
Os crimes supracitados encontram-se nos artigos 29; 34; 35; 38; e 41; da Lei 9.605/98 (Lei de Crimes Ambientais). As penalidades leves variam de três meses a um ano e outras de um ano a três anos, sendo que a maioria dos crimes ambientais é afiançável (cabe fiança).
Quanto ao problema da segurança pública na Vila do Morro de São Paulo, o Delegado de Polícia, explicita que:
No que diz respeito ao direito social, segurança pública pode-se afirmar que esta necessita urgentemente da atenção devida dos poderes público e municipal, pois há uma grande carência de policiais militares, que são em número de três, embora o local necessite de no mínimo doze policiais. O Morro de São Paulo já necessita também de uma delegacia especializada para o turista, com a presença constante de um delegado, o mínimo de quatro agentes de polícia e dois escrivões. Carece também a segurança pública de boa estrutura material, pois há necessidade de armamentos, lanchas para o combate de crimes ambientais... Na delegacia, por exemplo, não existem computadores, nenhum agente de polícia, dentre outros problemas...
Ora, partindo-se do pressuposto que a segurança é uma condição sine qua non para o homem, esta deverá ser priorizada tendo em vista a necessidade de uma maior proteção para os turistas, cujos reflexos também se estenderão para a comunidade local. Tal perspectiva é assegurada no nosso ordenamento jurídico, onde a Constituição Federal do Brasil, ao relatar os direitos e garantias fundamentais do cidadão no seu art. 5º, explicita acerca da inviolabilidade do direito à liberdade, à segurança, entre outros.
O combate à criminalidade é hoje uma aspiração mundial, uma vez que a busca de conforto, tranqüilidade, qualidade de vida e segurança, é almejada por toda a humanidade. Não gozando destas perspectivas nos seus momentos de lazer nas regiões escolhidas para suas viagens e passeios, os turistas, sem dúvida, voltarão frustrados aos seus locais de origem, se cometidos por instabilidades oriundas da insegurança e incidência da violência.
A segurança pública é dever do Estado, devendo este atuar da maneira mais eficaz possível na realização desta tarefa essencial e indispensável. O Morro de São Paulo, por apresentar requisitos satisfatórios para o desenvolvimento da atividade turística, deverá buscar nos seus órgãos competentes, otimizar a prestação dos serviços turísticos, através de um fator primordial, que é a promoção da segurança.
Na avaliação da comunidade, as condições do saneamento básico na Vila de Morro de São Paulo são insuficientes. A água não é aconselhável para beber, devido ao excesso ou por vezes escassez de cloro, bem como o não tratamento adequado, diante a existência de “coliformes fecais” e outras impurezas. No período de alta estação o fluxo de turistas, cerca de três vezes maior do que a capacidade da vila gera colapso no abastecimento de água, revelando a necessidade de reestruturação desse sistema e de estudos de capacidade de carga para o local ainda inexistente. Esta situação tem ocasionado o aumento do consumo de água mineral, gerando ônus para a comunidade, que muitas vezes, não possuem recursos financeiros suficientes.
Quanto ao esgotamento sanitário, embora tenha sido inaugurado um centro de tratamento somente há um ano, o mesmo não atende a totalidade da população, bem como não há a devida manutenção. Vale ressaltar, que tal sistema de esgoto tão precário, fora custeado pela população, correspondendo a maior porcentagem do valor mensal da conta de água, proveniente do alto custo do esgotamento sanitário. Sabe-se também da existência de mais de 100 poços artesanais feitos pelos grandes empreendimentos do setor hoteleiro.
Por se tratar de uma ilha, a coleta de lixo enfrenta demasiadas dificuldades, pois a coleta é realizada por um trator que só tem acesso a ilha quando a maré está alta. O fornecimento de energia elétrica sofreu melhorias no último ano, com ampliação da rede. Entretanto, a totalidade da população e de ruas não foi atingida. O sistema de telefonia atende satisfatoriamente a população. Em contrapartida, é obrigada a administrar os atos de vandalismo em telefones públicos. As vias de acesso à ilha são áreas e marítimas, sendo a última mais utilizada, mas que não dispõe de constante fiscalização, deixando claro a necessidade de melhorias.
Quando inquiridas sobre a existência de programas e ações dos poderes públicos junto ao Morro de São Paulo, os entrevistados citaram as iniciativas do PRODETUR (Programa de Desenvolvimento do Turismo) e do Projeto Município Parque do Morro de São Paulo.
Por fim, as maiores dificuldades existentes na atividade turística no Morro de São Paulo salientados pelos entrevistados referem-se em sua maioria, a: Melhorias na estrutura de atendimento do único posto médico da Vila de Morro de São Paulo que só funciona até as 18 horas, o que não é suficiente para atender aos turistas e a própria comunidade, necessitando ainda de equipamentos, medicamentos e funcionários qualificados como: médicos, enfermeiros e auxiliares; o alto índice de analfabetismo na comunidade; a falta de segurança pública, pois existem apenas três policiais militares para atender a Vila de Morro de São Paulo; tráfico de drogas e prostituição infanto – juvenil; a falta de receptividade da população ao turista; a desorganização das embarcações que fazem o transporte dos turistas de Valença ao Morro de São Paulo, o que prejudica o atendimento; os elevados preços praticados na Vila de Morro de São Paulo; a rivalidade entre os próprios barraqueiros para a realização de festas na praia.
4. Considerações Finais
A explosão e o crescimento do turismo nas ilhas de Tinharé e Boipeba, sobretudo Morro de São Paulo, cresceu nas últimas décadas com o advento do turismo de massas, que trouxe grande impacto para a infra-estrutura existente que não suporta a crescente demanda em períodos de alta estação, com graves conseqüências para o meio ambiente local. Esses problemas estão ligados, sobretudo as deficientes condições de saneamento básico e à deficiência dos serviços de saúde, segurança e educação.
Por isso se faz necessário um planejamento do turismo juntamente com os líderes da comunidade da Vila de Morro de São Paulo, pois a idéia de que o turismo só pode ser sustentável se a comunidade local estiver envolvida em seu planejamento e em sua administração.
Ao se falar em turismo de qualidade tendo como suporte o contexto de turismo sustentável, não se quer dizer com isto que, para se alcançar tal objetivo, o turismo destine-se apenas a grupo de pessoas com maiores rendimentos ou nível cultural elevado (dentro do princípio do turismo seletivo).
Considerando-se que os bens turísticos sejam de qual for sua natureza e/ou característica, são bens escassos que precisam ser utilizados com muito cuidado para garantir sua preservação. Torna-se assim necessário que a comunidade e os órgãos governamentais ou não governamentais, utilizem todos os meios para preservar este santuário. Para tal, segundo Torres (2001) deve-se organizar e elaborar estudos e projetos, considerando os seguintes aspectos: Enquadrar e regulamentar a utilização dos espaços; Limitar o acesso à utilização dos bens mais sensíveis e, sobretudo informar e interpretar o patrimônio com o objetivo de orientar e/ ou ensinar aos residentes locais e aos turistas sobre a importância desses bens.
A APA das ilhas de Tinharé/Boipeba, em especial a Vila de Morro de São Paulo pelo valioso patrimônio natural que representa, ressente-se, no momento atual, da adoção de um sistema de gerenciamento que avalie dinamicamente o grau de intervenção no meio ambiente e estabeleça mecanismos de controle e desenvolvimento através da utilização sustentável dos recursos naturais e a preservação dos ecossistemas mais sensíveis. Deve-se também controlar de alguma maneira o excesso de turistas que visitam a ilha durante o período da alta estação como, por exemplo, uma taxa de permanência na vila, como acontece no Arquipélago de Fernando de Noronha, a fim de determinar o número de dias que os visitantes podem passar, desde que os mesmos conheçam todos os lugares de passeio, entre outros.
Considerando todas as observações sugeridas e implementadas as devidas ações, o destino de Morro de São Paulo tornar-se-ia viável, dentro do turismo sustentável, pois a natureza ajudou a ilha, dando a ela uma bela paisagem e seus recursos naturais de excepcional beleza. Mas para que tudo isto possa ser visto no futuro é preciso a conscientização da comunidade, bem como parcerias entre empresários, ong’s e outros. É preciso também que seus gestores tenham vontade política para realizar projetos e investir no que for necessário para transformar os recursos naturais em recursos econômicos para a vila.
Diante do exposto, verifica-se que o turismo em Morro de São Paulo não atende ainda aos preceitos de turismo sustentável, divergindo-se da hipótese outrora exposta nesta pesquisa. Acredita-se que para a consecução do desenvolvimento sustentável na vila, deverão ser atendidos os objetivos de proteção e preservação ambiental, bem-estar e a melhoria da qualidade de vida da comunidade residente, a satisfação das necessidades e expectativas do turista e as integrações econômicas locais e regionais, levando-se em conta os pilares da sustentabilidade econômica, ambiental, social e cultural.
5. REFERÊNCIAS
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BENI, M.C. Análise estrutural do turismo. 2º ed. São Paulo: SENAC, 1998.
CAIRO, Thiana de Souza. Origens dos alimentos e bebidas (A&B) para o abastecimento da rede hoteleira de Ilhéus. 2001. 77p. Monografia (conclusão de curso) - Faculdade de Ciências Econômicas.Universidade Estadual de Santa Cruz. Ilhéus.
CAVALCANTI, A. P. B. Desenvolvimento Sustentável e Planejamento: Bases teóricas e conceituais. Fortaleza: UFC-Imprensa Universitária, 1997.
CUNHA, L. Economia e Política do Turismo. Portugal: Mc-Grraw-Hill, 1997.
CMMAD – Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. “Nosso Futuro Comum”. 2º ed., Rio de Janeiro, FGV, 1991.
COUTINHO, S.F.S. SELVA, V.S.F Minicurso: Ecoturismo. In: 8º Congresso Nordestino de Ecologia. (RE) Pensando o Futuro. Ambiente XXI, Recife-PE, maio-junho, 1999.
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GOVERNO DO ESTADO DA BAHIA, Plano de Manejo: APA da ilhas de Tinharé e Boipeba, Centro de Recursos Ambientais.1998.
PETROCCHI, M. Turismo: planejamento e gestão. São Paulo: Futura, 1998.
RUSCHMANN, D.V.M. Turismo e planejamento sustentável: A proteção do meio ambiente. Campinas, São Paulo: Papirus, 1997.
TÔRRES, A.P. Capacidade de Carga Turística como fator de Sustentabilidade Ambiental – O caso da cidade de Itacaré - Ba. 2001. 50p. Monografia (conclusão de curso) Faculdade de Ciências Econômicas. Universidade Estadual de Santa Cruz.
Eu sou a autora deste artigo, juntamente com Thiana Cairo, no qual foi apresentado no Forúm de Turismo na Uesc em 2004, pela minha orientadora Thiana, muitos anos já se passaram apresentei minha monografia em 2003, fico feliz em reler meu artigo depois de anos.
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