Sustentabilidade e desenvolvimento sustentável




O princípio de sustentabililidade planetária envolve a eclipse social para o meio ambiente. Eclipse social significa esconder o desenvolvimento sustentável. Cada um deve fazer a sua parte.



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Empresa socialmente responsável

Será possível no início deste novo século conceber e desenvolver uma empresa
ética e socialmente responsável?

No decurso da historia e especialmente nestes dias, graças à extraordinária popularizaçãodos meios de comunicação, fala-se sobre muitos termos – ética, responsabilidade social,liberdade, justiça e tantos outros – em muitos âmbitos, sem especial cuidado de entender,ou aprofundar, seu significado. Parece claro que se por um lado temos um aspecto positivo na própria discussão, por outro, incorremos no risco de banalizar até tal ponto os conceitos,que eles deixam de ter sentido e se convertem em palavras de ordem ou “chavões” de grupos. O risco é ainda maior quando compreendemos que todos os termos acima citadosimplicam escolha, posição pessoal, e que estas sempre tem conseqüências, sejam pessoais ou coletivas.
“Ethos”, palavra de origem grega, nos proporciona a idéia de ‘habitat’, morada, e também, habito, costume. Dela derivamos um adjetivo: ‘ético’, ao qual freqüentemente atribuímos como sinônimo o termo ‘moral’, e disto passamos, pelo direito romano, a ‘normas de conduta’ ou princípios que regem uma sociedade ou grupo determinado.
Mas qual é, na origem, o sentido de “ethos”? Aristóteles começa a “Ética a Nicômaco”
definindo que o objeto de um ato ético é o bem, quando escreve: “Admite-se geralmente
que toda arte e toda investigação, assim como toda ação e toda escolha, têm em mira um bem qualquer; e por isso foi dito, como muito acerto, que o bem é aquilo a que todas as coisas tendem” 1. Sem mergulhar na infindável riqueza da discussão, que durante os últimos 25 séculos, originou esta afirmação por meio de incalculáveis tratados e teorias, e, rejeitando a acusação de ingênua – no relacionado com ‘o bem’ -, ou como por demais otimista, no seu aspecto global, proponho vejamos sua aplicação no campo empresarial. A organização empresarial é, sem dúvida, um dos maiores senão o maior, agente transformador da sociedade. Vivemos em uma mudança de época, com profundas e irreversíveis influências motivadas pela “cybernetização” da sociedade onde a empresa está inserida, mudando os médios de produção, gerenciamento e a relação com a sociedade.
Não resulta simples nos dirigir a grandes corporações ou a microempresas com a mesma
linguagem ou o mesmo instrumental. Empresas que trabalham no âmbito dos serviços têm
características próprias e diferentes às industriais ou financeiras; em resumo: assim como cada ser é uma individualidade específica e indivisível, também as empresas têm “personalidade” própria, uma identidade. Assim como todos temos uma percepção com respeito ao ‘outro’, assim como todos temos uma noção da ‘alteridade’, assim também – e cada vez com maior freqüência – buscamos identificar, definir, conhecer a ‘identidade’ das empresas que estão no mercado com as quais, necessariamente, interagimos. Para identificar um ponto de partida na elaboração da resposta ao título deste artigo, e, tentando conceituar que significa uma empresa ética e socialmente responsável, gostaria partir de uma afirmação de Milton Friedman, premio Nobel de economia, pensador da Escola de Chicago no inicio dos anos 70: “Se homens de negócios têm outra responsabilidade social que não a de obter o máximo de lucro para seus acionistas, como poderão saber qual seria ela? Podem os indivíduos decidir o que constitui o interesse
social?”

2.
Atrevo-me a responder as perguntas acima e, a concordar com seu autor, se puder
identificar as formas por meio das quais os “homens de negócios” obtêm “o máximo de
lucro...”. Vejamos isto em termos práticos, através de como esta analise possa afetar os “stakeholders”, isto é, os agentes e ambientes que têm vínculos com a empresa em
questão. 1 ARISTOTELES. “Ética a Nicômaco” Trad. L. Vallandro e G. Bornheim da Versão inglesa de W.D. Ross. São Paulo, 1979, Abril Cultural. Coleção “Os pensadores”. 2 FRIEDMAN, Milton. “The social Responsability of Business is to Increase Profit” New York, 1970. New
York Times Magazine, 13 de setembro de 1970. Vide também “Capitalismo e Liberdade”. 1984. São
Paulo. Abril Cultural, Coleção ‘Os Economistas’, p. 123. Artigo 1.doc 2
Vejamos como cada uma dessas relações implica, sempre, uma escolha a fazer, o por que
adotamos um caminho ou outro, como em função de uma escolha consideramos os
interesses ou os valores de cada um desses agentes, como cuidamos do futuro ou a
perenidade da empresa, em última instancia, qual visão estratégica que temos para criar a nossa ‘identidade’ empresarial.
Meio ambiente: depredamos a natureza da qual tiramos os insumos para nossa produção?
Descuidamos os resíduos químicos e/ou poluentes industriais que geramos? Ou, investimos o necessário para cuidar dos recursos naturais? Cuidando desse meio e assegurando seu usufruto sustentável no longo prazo.
Estrutura jurídica, tributária e legal do Estado: Aproveita-se do ‘jogo do poder’ em beneficio do interesse próprio, ou a sobrevivência? Sonegamos impostos, taxas e tributos alegando o ‘injusto’ de sua carga, e/ou as dúvidas de sua aplicação? Ou, cumprimos com as obrigações, ainda que não estejamos totalmente de acordo? Utilizando sim, os meios
representativos e institucionais para mudar a situação.
Agentes da Comunidade organizada: Desconhecendo a necessidade do entorno? Proibindo a
participação de voluntários nos trabalhos dessas comunidades? Ou, atendendo conforme
possibilidades e prioridades alguns projetos? Permitindo a participação do voluntariado e
outras formas institucionais de participação?
Clientes: crescendo por meio de publicidade enganosa? Descuidando da qualidade?
Ganhando mercado através de subornos ou “gratificações” irregulares? Ou, Cumprindo com
as especificações contratadas e prometidas? Não utilizando nenhuma forma ilegal ou contra
a dignidade da pessoa ou empresas? Fornecendo sempre claras informações?
Fornecedores: extorquindo? Usando todo o peso do poder econômico? Utilizando-se de
informação reservada? Ou, Otimizando a cadeia de valor? Buscando parcerias de longo
prazo?
Investidores e/ou acionistas: Fraudes em balanços econômicos e contáveis? Falta de
transparência nas informações? Ou, Informando com responsabilidade em qualquer caso?
Dedicando o tempo necessário para dar a conhecer a situação empresarial?
Colaboradores e funcionários: Falta de comunicação proposital? Estilo “manda quem pode,
obedece quem tem juízo?” Discriminado por qualquer tipo de minoria ou diferencias? Ou,
Propiciando uma verdadeira gestão participativa? Aceitando as diferencias? Promovendo
talentos?
Poder-se-ia ampliar em muito as perguntas, assim como adicionar outros “stakeholders”,
entretanto já e suficiente para saber qual o tipo de identidade da empresa em questão
conforme as respostas sejam antes ou depois do “ou”. Esta visão global tem implicações
muito importantes desde o ponto de vista da alta administração: (i) exige integrar a ética e
“o social” no planejamento estratégico integrado da Organização; (ii) define uma nova
dimensão da Direção Executiva e / ou Conselho de Administração; (iii) pressupõe uma real
gestão participativa; (iv) resgata a primazia do homem versus a coisa; (v) consolida a identidade empresarial e impõe coerência a seus administradores.
Este processo também é cada dia mais maduro e consciente na sociedade, e o próprio
mercado avalia as atitudes empresariais até o limite de condenar ao desaparecimento as organizações que pactuam com praticas não éticas.
Em conclusão podemos afirmar que não somente é possível conceber e desenvolver
empresas ética e socialmente responsáveis, mas, estou totalmente seguro, são as únicasque sobreviveram no fim deste século que tivemos o privilegio de começar.
Depois das perguntas acima formuladas não parece muito difícil identificar “o bem” ao qualse referia Aristóteles, talvez seja oportuno voltar a lê-lo.
Alberto Augusto Perazzo. Economista pela UNBA, Membro do Conselho de Administração de
diversas companhias na área de Tecnologia da Informação. Presidente Executivo da
Fundação Instituto Desenvolvimento Empresarial e Social – FIDES -, Membro do FRH,
Fórum Permanente de Estudos Avançados das Relações Humanas no Trabalho.

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