Sustentabilidade e desenvolvimento sustentável




O princípio de sustentabililidade planetária envolve a eclipse social para o meio ambiente. Eclipse social significa esconder o desenvolvimento sustentável. Cada um deve fazer a sua parte.



quarta-feira, 31 de março de 2010

Confirmado o avanço da ISO 26000 para o estágio FDIS

Confirmado o avanço da ISO 26000 para o estágio FDIS

A futura norma ISO 26000 passou para uma outra importante etapa de desenvolvimento, com a confirmação de que o apoio dos membros da ISO e das organizações de ligação é suficientemente forte para que o documento evolua para o estágio Final Draft International Standard (FDIS). Este é o último estágio da construção de um padrão ISO antes de ser publicado como Norma Internacional.

Em meados de fevereiro, os membros da ISO votaram a favor de elevar a versão DIS - Draft International Standard - para a versão FDIS (vejam aqui a postagem que publiquei a respeito). No entanto, a fim de avaliar também o apoio de outras 42 organizações internacionais de ligação que participam do Grupo de Trabalho sobre Responsabilidade Social (ISO/WG SR), a liderança do WG analisou as opiniões e comentários dessas organizações antes de aprovar o avanço para a FDIS.

As organizações de ligação incluem associações representativas de empresas, ONGs da sociedade civil, dos consumidores e de trabalhadores. Elas não têm direito a voto, mas têm participado de forma ativa e direta da construção da ISO 26000.

Com a decisão do ISO/WG SR formalmente confirmada, o Grupo de Trabalho irá agora se concentrar nos 2.650 comentários recebidos durante o período de votação, a fim de aumentar ainda mais o nível de consenso e de qualidade do documento.

Com esse objetivo em mente, o ISO/WG SR irá estudar todos os comentários recebidos e preparar as discussões para a próxima reunião que acontecerá em Copenhague, na Dinamarca, em maio.

Após a reunião, um novo documento revisado será finalizado com base nos acordos que forem alcançados em Copenhague. Esse novo documento será distribuído como FDIS por um período de dois meses para votação. Se aprovada a versão FDIS, a ISO 26000 poderá ser finalmente publicada como Norma Internacional até o 4º trimestre deste ano.

http://www.iso26000qsp.org/

domingo, 21 de março de 2010

A CARTA DA TERRA




PREÂMBULO

Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a humanidade deve escolher o seu futuro. À medida que o mundo torna-se cada vez mais interdependente e frágil, o futuro enfrenta, ao mesmo tempo, grandes perigos e grandes promessas. Para seguir adiante, devemos reconhecer que, no meio da uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum. Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na justiça econômica e numa cultura da paz. Para chegar a este propósito, é imperativo que nós, os povos da Terra, declaremos nossa responsabilidade uns para com os outros, com a grande comunidade da vida, e com as futuras gerações.

Terra, Nosso Lar
A humanidade é parte de um vasto universo em evolução. A Terra, nosso lar, está viva com uma comunidade de vida única. As forças da natureza fazem da existência uma aventura exigente e incerta, mas a Terra providenciou as condições essenciais para a evolução da vida. A capacidade de recuperação da comunidade da vida e o bem-estar da humanidade dependem da preservação de uma biosfera saudável com todos seus sistemas ecológicos, uma rica variedade de plantas e animais, solos férteis, águas puras e ar limpo. O meio ambiente global com seus recursos finitos é uma preocupação comum de todas as pessoas. A proteção da vitalidade, diversidade e beleza da Terra é um dever sagrado.

A Situação Global
Os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental, redução dos recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas. Os benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos equitativamente e o fosso entre ricos e pobres está aumentando. A injustiça, a pobreza, a ignorância e os conflitos violentos têm aumentado e são causa de grande sofrimento. O crescimento sem precedentes da população humana tem sobrecarregado os sistemas ecológico e social. As bases da segurança global estão ameaçadas. Essas tendências são perigosas, mas não inevitáveis.

Desafios Para o Futuro
A escolha é nossa: formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscar a nossa destruição e a da diversidade da vida. São necessárias mudanças fundamentais dos nossos valores, instituições e modos de vida. Devemos entender que, quando as necessidades básicas forem atingidas, o desenvolvimento humano será primariamente voltado a ser mais, não a ter mais. Temos o conhecimento e a tecnologia necessários para abastecer a todos e reduzir nossos impactos ao meio ambiente. O surgimento de uma sociedade civil global está criando novas oportunidades para construir um mundo democrático e humano. Nossos desafios ambientais, econômicos, políticos, sociais e espirituais estão interligados, e juntos podemos forjar soluções includentes.

Responsabilidade Universal
Para realizar estas aspirações, devemos decidir viver com um sentido de responsabilidade universal, identificando-nos com toda a comunidade terrestre bem como com nossa comunidade local. Somos, ao mesmo tempo, cidadãos de nações diferentes e de um mundo no qual a dimensão local e global estão ligadas. Cada um compartilha da responsabilidade pelo presente e pelo futuro, pelo bem- estar da família humada e de todo o mundo dos seres vivos. O espírito de solidariedade humana e de parentesco com toda a vida é fortalecido quando vivemos com reverência o mistério da existência, com gratidão pelo dom da vida, e com humildade considerando em relaçao ao lugar que ocupa o ser humano na natureza.

Necessitamos com urgência de uma visão compartilhada de valores básicos para proporcionar um fundamento ético à comunidade mundial emergente. Portanto, juntos na esperança, afirmamos os seguintes princípios, todos interdependentes, visando um modo de vida sustentável como critério comum, através dos quais a conduta de todos os indivíduos, organizações, empresas, governos, e instituições transnacionais será guiada e avaliada.

PRINCÍPIOS

I. RESPEITAR E CUIDAR DA COMUNIDADE DA VIDA

•1. Respeitar a Terra e a vida em toda sua diversidade.
◦a. Reconhecer que todos os seres são interligados e cada forma de vida tem valor, independentemente de sua utilidade para os seres humanos.
◦b. Afirmar a fé na dignidade inerente de todos os seres humanos e no potencial intelectual, artístico, ético e espiritual da humanidade.
•2. Cuidar da comunidade da vida com compreensão, compaixão e amor.
◦a. Aceitar que, com o direito de possuir, administrar e usar os recursos naturais vem o dever de impedir o dano causado ao meio ambiente e de proteger os direitos das pessoas.
◦b. Assumir que o aumento da liberdade, dos conhecimentos e do poder implica responsabilidade na promoção do bem comum.
•3. Construir sociedades democráticas que sejam justas, participativas, sustentáveis e pacíficas.
◦a. Assegurar que as comunidades em todos níveis garantam os direitos humanos e as liberdades fundamentais e proporcionem a cada um a oportunidade de realizar seu pleno potencial.
◦b. Promover a justiça econômica e social, propiciando a todos a consecução de uma subsistência significativa e segura, que seja ecologicamente responsável.
•4. Garantir as dádivas e a beleza da Terra para as atuais e as futuras gerações.
◦a. Reconhecer que a liberdade de ação de cada geração é condicionada pelas necessidades das gerações futuras.
◦b. Transmitir às futuras gerações valores, tradições e instituições que apóiem, a longo prazo, a prosperidade das comunidades humanas e ecológicas da Terra.

Para poder cumprir estes quatro amplos compromissos, é necessario:

II. INTEGRIDADE ECOLÓGICA

•5. Proteger e restaurar a integridade dos sistemas ecológicos da Terra, com especial preocupação pela diversidade biológica e pelos processos naturais que sustentam a vida.
◦a. Adotar planos e regulamentações de desenvolvimento sustentável em todos os níveis que façam com que a conservação ambiental e a reabilitação sejam parte integral de todas as iniciativas de desenvolvimento.
◦b. Estabelecer e proteger as reservas com uma natureza viável e da biosfera, incluindo terras selvagens e áreas marinhas, para proteger os sistemas de sustento à vida da Terra, manter a biodiversidade e preservar nossa herança natural.
◦c. Promover a recuperação de espécies e ecossistemas ameaçadas.
◦d. Controlar e erradicar organismos não-nativos ou modificados geneticamente que causem dano às espécies nativas, ao meio ambiente, e prevenir a introdução desses organismos daninhos.
◦e. Manejar o uso de recursos renováveis como água, solo, produtos florestais e vida marinha de formas que não excedam as taxas de regeneração e que protejam a sanidade dos ecossistemas.
◦f. Manejar a extração e o uso de recursos não-renováveis, como minerais e combustíveis fósseis de forma que diminuam a exaustão e não causem dano ambiental grave.


•6. Prevenir o dano ao ambiente como o melhor método de proteção ambiental e, quando o conhecimento for limitado, assumir uma postura de precaução.
◦a. Orientar ações para evitar a possibilidade de sérios ou irreversíveis danos ambientais mesmo quando a informação científica for incompleta ou não conclusiva.
◦b. Impor o ônus da prova àqueles que afirmarem que a atividade proposta não causará dano significativo e fazer com que os grupos sejam responsabilizados pelo dano ambiental.
◦c. Garantir que a decisão a ser tomada se oriente pelas consequências humanas globais, cumulativas, de longo prazo, indiretas e de longo alcance.
◦d. Impedir a poluição de qualquer parte do meio ambiente e não permitir o aumento de substâncias radioativas, tóxicas ou outras substâncias perigosas.
◦e. Evitar que atividades militares causem dano ao meio ambiente.


•7. Adotar padrões de produção, consumo e reprodução que protejam as capacidades regenerativas da Terra, os direitos humanos e o bem-estar comunitário.
◦a. Reduzir, reutilizar e reciclar materiais usados nos sistemas de produção e consumo e garantir que os resíduos possam ser assimilados pelos sistemas ecológicos.
◦b. Atuar com restrição e eficiência no uso de energia e recorrer cada vez mais aos recursos energéticos renováveis, como a energia solar e do vento.
◦c. Promover o desenvolvimento, a adoção e a transferência eqüitativa de tecnologias ambientais saudáveis.
◦d. Incluir totalmente os custos ambientais e sociais de bens e serviços no preço de venda e habilitar os consumidores a identificar produtos que satisfaçam as mais altas normas sociais e ambientais.
◦e. Garantir acesso universal a assistência de saúde que fomente a saúde reprodutiva e a reprodução responsável.
◦f. Adotar estilos de vida que acentuem a qualidade de vida e subsistência material num mundo finito.


•8. Avançar o estudo da sustentabilidade ecológica e promover a troca aberta e a ampla aplicação do conhecimento adquirido.
◦a. Apoiar a cooperação científica e técnica internacional relacionada à sustentabilidade, com especial atenção às necessidades das nações em desenvolvimento.
◦b. Reconhecer e preservar os conhecimentos tradicionais e a sabedoria espiritual em todas as culturas que contribuam para a proteção ambiental e o bem-estar humano.
◦c. Garantir que informações de vital importância para a saúde humana e para a proteção ambiental, incluindo informação genética, estejam disponíveis ao domínio público.

III. JUSTIÇA SOCIAL E ECONÔMICA

•9. Erradicar a pobreza como um imperativo ético, social e ambiental.
◦a .Garantir o direito à água potável, ao ar puro, à segurança alimentar, aos solos não- contaminados, ao abrigo e saneamento seguro, distribuindo os recursos nacionais e internacionais requeridos.
◦b. Prover cada ser humano de educação e recursos para assegurar uma subsistência sustentável, e proporcionar seguro social e segurança coletiva a todos aqueles que não são capazes de manter- se por conta própria.
◦c. Reconhecer os ignorados, proteger os vulneráveis, servir àqueles que sofrem, e permitir-lhes desenvolver suas capacidades e alcançar suas aspirações.


•10. Garantir que as atividades e instituições econômicas em todos os níveis promovam o desenvolvimeto humano de forma eqüitativa e sustentável.
◦a. Promover a distribuição eqüitativa da riqueza dentro das e entre as nações.
◦b. Incrementar os recursos intelectuais, financeiros, técnicos e sociais das nações em desenvolvimento e isentá-las de dívidas internacionais onerosas.
◦c. Garantir que todas as transações comerciais apóiem o uso de recursos sustentáveis, a proteção ambiental e normas trabalhistas progressistas.
◦d. Exigir que corporações multinacionais e organizações financeiras internacionais atuem com transparência em benefício do bem comum e responsabilizá-las pelas conseqüências de suas atividades.


•11. Afirmar a igualdade e a eqüidade de gênero como pré-requisitos para o desenvolvimento sustentável e assegurar o acesso universal à educação, assistência desaúde e às oportunidades econômicas.
◦a. Assegurar os direitos humanos das mulheres e das meninas e acabar com toda violência contra elas.
◦b. Promover a participação ativa das mulheres em todos os aspectos da vida econômica, política, civil, social e cultural como parceiras plenas e paritárias, tomadoras de decisão, líderes e beneficiárias.
◦c. Fortalecer as famílias e garantir a segurança e a educação amorosa de todos os membros da família.


•12. Defender, sem discriminação, os direitos de todas as pessoas a um ambiente natural e social, capaz de assegurar a dignidade humana, a saúde corporal e o bem-estar espiritual, concedendo especial atenção aos direitos dos povos indígenas e minorias.
◦a. Eliminar a discriminação em todas suas formas, como as baseadas em raça, cor, gênero, orientação sexual, religião, idioma e origem nacional, étnica ou social.
◦b. Afirmar o direito dos povos indígenas à sua espiritualidade, conhecimentos, terras e recursos, assim como às suas práticas relacionadas a formas sustentáveis de vida.
◦c. Honrar e apoiar os jovens das nossas comunidades, habilitando-os a cumprir seu papel essencial na criação de sociedades sustentáveis.
◦d. Proteger e restaurar lugares notáveis pelo significado cultural e espiritual.

IV.DEMOCRACIA, NÃO VIOLÊNCIA E PAZ

•13. Fortalecer as instituições democráticas em todos os níveis e proporcionar-lhes transparência e prestação de contas no exercício do governo, participação inclusiva na tomada de decisões, e acesso à justiça.
◦a. Defender o direito de todas as pessoas no sentido de receber informação clara e oportuna sobre assuntos ambientais e todos os planos de desenvolvimento e atividades que poderiam afetá-las ou nos quais tenham interesse.
◦b. Apoiar sociedades civis locais, regionais e globais e promover a participação significativa de todos os indivíduos e organizações na tomada de decisões.
◦c. Proteger os direitos à liberdade de opinião, de expressão, de assembléia pacífica, de associação e de oposição.
◦d. Instituir o acesso efetivo e eficiente a procedimentos administrativos e judiciais independentes, incluindo retificação e compensação por danos ambientais e pela ameaça de tais danos.
◦e. Eliminar a corrupção em todas as instituições públicas e privadas.
◦f. Fortalecer as comunidades locais, habilitando-as a cuidar dos seus própios ambientes, e atribuir responsabilidades ambientais aos níveis governamentais onde possam ser cumpridas mais efetivamente.


•14. Integrar, na educação formal e na aprendizagem ao longo da vida, os conhecimentos, valores e habilidades necessárias para um modo de vida sustentável.
◦a. Oferecer a todos, especialmente a crianças e jovens, oportunidades educativas que lhes permitam contribuir ativamente para o desenvolvimento sustentável.
◦b. Promover a contribuição das artes e humanidades, assim como das ciências, na educação para sustentabilidade.
◦c. Intensificar o papel dos meios de comunicação de massa no sentido de aumentar a sensibilização para os desafios ecológicos e sociais.
◦d. Reconhecer a importância da educação moral e espiritual para uma subsistência sustentável.


•15. Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração.
◦a. Impedir crueldades aos animais mantidos em sociedades humanas e protegê-los de desofrimentos.
◦b. Proteger animais selvagens de métodos de caça, armadilhas e pesca que causem sofrimento extremo, prolongado ou evitável.
◦c.Evitar ou eliminar ao máximo possível a captura ou destruição de espécies não visadas.


•16. Promover uma cultura de tolerância, não violência e paz.
◦a. Estimular e apoiar o entendimento mútuo, a solidariedade e a cooperação entre todas as pessoas, dentro das e entre as nações.
◦b. Implementar estratégias amplas para prevenir conflitos violentos e usar a colaboração na resolução de problemas para manejar e resolver conflitos ambientais e outras disputas.
◦c. Desmilitarizar os sistemas de segurança nacional até chegar ao nível de uma postura não- provocativa da defesa e converter os recursos militares em propósitos pacíficos, incluindo restauração ecológica.
◦d. Eliminar armas nucleares, biológicas e tóxicas e outras armas de destruição em massa.
◦e. Assegurar que o uso do espaço orbital e cósmico mantenha a proteção ambiental e a paz.
◦f. Reconhecer que a paz é a plenitude criada por relações corretas consigo mesmo, com outras pessoas, outras culturas, outras vidas, com a Terra e com a totalidade maior da qual somos parte.

O CAMINHO ADIANTE

Como nunca antes na história, o destino comum nos conclama a buscar um novo começo. Tal renovação é a promessa dos princípios da Carta da Terra. Para cumprir esta promessa, temos que nos comprometer a adotar e promover os valores e objetivos da Carta.

Isto requer uma mudança na mente e no coração. Requer um novo sentido de interdependência global e de responsabilidade universal. Devemos desenvolver e aplicar com imaginação a visão de um modo de vida sustentável aos níveis local, nacional, regional e global. Nossa diversidade cultural é uma herança preciosa, e diferentes culturas encontrarão suas próprias e distintas formas de realizar esta visão. Devemos aprofundar e expandir o diálogo global gerado pela Carta da Terra, porque temos muito que aprender a partir da busca iminente e conjunta por verdade e sabedoria.

A vida muitas vezes envolve tensões entre valores importantes. Isto pode significar escolhas difíceis. Porém, necessitamos encontrar caminhos para harmonizar a diversidade com a unidade, o exercício da liberdade com o bem comum, objetivos de curto prazo com metas de longo prazo. Todo indivíduo, família, organização e comunidade têm um papel vital a desempenhar. As artes, as ciências, as religiões, as instituições educativas, os meios de comunicação, as empresas, as organizações não- governamentais e os governos são todos chamados a oferecer uma liderança criativa. A parceria entre governo, sociedade civil e empresas é essencial para uma governabilidade efetiva.

Para construir uma comunidade global sustentável, as nações do mundo devem renovar seu compromisso com as Nações Unidas, cumprir com suas obrigações respeitando os acordos internacionais existentes e apoiar a implementação dos princípios da Carta da Terra com um instrumento internacional legalmente unificador quanto ao ambiente e ao desenvolvimento.

Que o nosso tempo seja lembrado pelo despertar de uma nova reverência face à vida, pelo compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, a intensificação da luta pela justiça e pela paz, e a alegre celebração da vida.

http://www.earthcharter.org/

segunda-feira, 15 de março de 2010

RURALIDADE

Ruralidade: novas identidades em construção

Maria José Carneiro, CPDA/UFRRJ

O ritmo das transformações das relações sociais e de trabalho no campo transforma as noções de “urbano” e “rural” em categorias simbólicas construídas a partir de representações sociais que, em algumas regiões, não correspondem mais a realidades distintas cultural e socialmente. Torna-se cada vez mais difícil delimitar fronteiras claras entre as cidades e os pequenos vilarejos ou arraiais a partir de uma classificação sustentada em atividades econômicas ou mesmos em hábitos culturais. No entanto tal processo não resulta, a nosso ver, numa homogeneização que reduziria a distinção entre o rural e o urbano a um continuum dominado pela cena urbana, como já foi formulado no tocante à realidade européia (Lefebvre, 1972; Duby, 1984; Mendras, 1985, entre outros) e para a realidade brasileira (Graziano da Silva, 1996; Ianni, 1996, entre outros). “O desenvolvimento intensivo e extensivo do capitalismo no campo generaliza e enraíza formas de sociabilidade, instituições, padrões, valores e ideais que expressam a urbanização do mundo” (Ianni, 1996:60) .
No entanto, é importante considerar que o “campo” não está passando por um processo único de transformação em toda a sua extensão. Se as medidas modernizadoras sobre a agricultura foram moldadas no padrão de produção (e de vida) urbano-industrial, seus efeitos sobre a população local e a maneira como esta reage a tais injunções não são, de modo algum, uniformes, assim como tais medidas não atingem com a mesma intensidade e proporções as diferentes categorias de produtores. Nesse sentido não se pode falar de ruralidade em geral; ela se expressa de formas diferentes em universos culturais, sociais e econômicos heterogêneos.
Ainda que os efeitos da expansão da “racionalidade urbana” sobre o campo, provocada pela generalização da lógica do processo de trabalho e da produção capitalista intensificados pelos mecanismos da globalização, não possam, de forma alguma ser tratados com negligência, é precipitado concluir que tal processo resultaria na dissolução do agrário, e na tendência à transformação uniformizadora das condições de vida no campo. “O tecido urbano prolifera-se, estende-se, consumindo os resíduos da vida agrária. Por tecido urbano não se entende, de maneira estreita, a parte construída das cidades, mas sim o conjunto de manifestação do predomínio da cidade sobre o campo” (Lefebvre, 1972:10). Afirmações como a de Lefebvre eram mais consensuais nas décadas de 60 e 70 quando a pujança do desenvolvimento capitalista apontava para esse caminho de forma exclusiva e inexorável. No entanto, os próprios limites do modelo produtivista no campo e da expansão industrial nas cidades, a partir dos anos 80, principalmente nos países capitalistas avançados, têm engendrado formas alternativas de reprodução social no campo (e nas cidades) sugerindo aos pesquisadores a relativização do tom generalizador das interpretações anteriores, reconsiderando a relação entre tradições culturais e processo de modernização na agricultura. O debate sobre a pluriatividade na Europa, nos Estados Unidos e no Canadá, é ilustrativo desse processo .
Pesquisas em países desenvolvidos têm demonstrado dois fatos relevantes: a rápida adaptação do agricultor familiar ao processo de modernização, com técnicas avançadas, como também a contribuição da cultura do agricultor familiar (farming culture) na formulação de respostas à crise do modelo produtivista, como a pluriatividade, por exemplo.
Ao invés de se pensar a cultura camponesa através do contraste com a cultura urbano-industrial, o que levaria a repetir o que já fora dito sobre o efeito generalizador do processo de descampezinação do campo, alguns desses autores chamam a atenção para a necessidade de romper com a referência à cultura urbano-industrial ao se analisar as verdadeiras mudanças pelas quais essa categoria social ampla e genérica - o campesinato - estaria passando ao longo do tempo. Nessa linha, Pongratz ao analisar a situação recente da agricultura na Alemanha Ocidental, chama a atenção para a capacidade da “cultura camponesa tradicional” em formular saídas para a crise da economia e do eco-sistema provocadas pelas medidas modernizadoras. Suas afirmações, baseadas em pesquisas antropológicas, são instigantes justamente por se tratar de um país que, consensualmente, teria concluído o processo de industrialização do campo. Elementos tradicionais da chamada “farming culture” não só persistiram como estão firmementes ancorados em largas camadas da população rural, até mesmo em pessoas empregadas em modernas empresas industriais (Pongratz, 1990). Rompendo com o paradigma que igualiza a cultura camponesa ao “tradicional”, “passivo” e “oposto à mudança”, Pongratz propõe pensar a integração da “farming culture” à sociedade industrial moderna sem que isto resulte num processo simples de aculturação. Em suma, a manutenção de tradições culturais (camponesas) não seria incompatível com a modernização da sociedade que deverá ser encarada simplesmente como uma nova fase, com novos objetivos, que pode incluir o que anteriormente era tido como “tradicional” e “atrasado”.
Essas contribuições são importantes, ao apontarem para a alternativa metodológica de não congelarmos o conceito de “camponês” no modelo medieval, como uma categoria social estática, incapaz de absorver e de acompanhar a dinâmica da sociedade em que se insere e de se adaptar às novas estruturas sem contudo abrir mão de valores, visão de mundo e formas de organização social que lhes são próprias. Ao chamar a atenção para a integração desses sistemas culturais em um país avançado como a Alemanha Ocidental, esses autores tem o mérito de nos alertar para a possibilidade de contribuirmos para a reorientação dos caminhos da modernização e das análises sobre os seus efeitos em um país que ainda não conclui seu processo de modernização e de industrialização.
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No Brasil, pesquisas recentes têm apontado para a ocorrência de dois conjuntos de fenômenos, em algumas regiões do meio rural brasileiro, que nos ajudam a pensar a questão da ruralidade hoje.
Em primeiro lugar, o espaço rural não se define mais exclusivamente pela atividade agrícola. Como já foi observado, é significativa a redução de pessoas ocupadas na agricultura, dado que se associa ao aumento do número de pessoas residentes no campo com atividades não agrícolas e ao aparecimento de uma camada relevante de pequenos agricultores que buscam combinar a agricultura com outras fontes de rendimento, normalmente não vinculadas diretamente ao processo de produção agro-pecuária (Graziano da Silva, 1996). Esse fenômeno – a pluriatividade – surge como a maior novidade no meio rural brasileiro chamando a nossa atenção para a possibilidade de novas formas de produção virem a se desenvolver no campo. Sem querer reduzir a compreensão dessa prática, ainda pouco estudada , à tendência ao desaparecimento do agricultor em tempo integral ou a mais uma forma de exploração da mão de obra rural, chamo a atenção para o fato de estarmos presenciando um movimento de reorientação da capacidade produtiva da população residente no campo que se expressa em novas formas de organização da atividade agrícola como uma alternativa ao êxodo rural, ao desemprego urbano, e ao padrão de desenvolvimento agrícola dominante.
O segundo fenômeno refere-se à procura crescente de formas de lazer associadas ao meio rural e até mesmo de meios alternativos de vida no campo, por pessoas vindas da cidade. Esse movimento, que se inicia de forma tímida no Brasil na década de 70, expande-se e encontra a sua legitimidade na divulgação do pensamento ecológico. Entre os seus efeitos destacam-se a ampliação das possibilidades de trabalho para a população rural, até então dedicada quase exclusivamente à agricultura, e a maior aproximação e integração de sistemas culturais distintos.
Novos valores sustentam a procura da proximidade com natureza e da vida no campo. A sociedade fundada na aceleração do ritmo da industrialização passa a ser questionada pela degradação das condições vida nos grandes centros. O contanto com a natureza é valorizado por um sistema de valores alternativos, neoruralista e antiprodutivista. O ar puro, a simplicidade da vida, e a natureza são vistos como elementos “purificadores” do corpo e do espírito poluídos pela sociedade industrial. O campo passa a ser reconhecido como espaço de lazer ou mesmo como opção de residência.
Essa busca pela natureza e o desejo dos citadinos em transformá-la em mais um bem de consumo toma a forma do turismo, transformando o ritmo de vida local. Pequenas pousadas são construídas e tendem a substituir, em grau de interesse e em rendimento, a unidade de produção agrícola que nela funcionava. A agricultura, nesses casos passa a ser um complemento, muitas vezes voltada para a manutenção da família e dos hóspedes, e um bem de consumo ao garantir o clima “rural” desejado pelos turistas.
Essas experiências, já conhecidas na realidade européia há algumas décadas, transformam o “campo” – como categoria genérica – em um lugar de vida, mais que um espaço de produção agrícola (Mendras, 1988), o que certamente contribuiu para a formulação de abordagens críticas à visão dualista que opunha o “rural” ao “urbano” como duas realidades empiricamente distintas normalmente definidas uma em negação a outra e com base em critérios meramente descritivos informados pelo paradigma que associa o “rural” ao agrícola e ao “atrasado” e o “urbano” ao industrial e ao “moderno”. É a partir do desenvolvimento do capitalismo na agricultura concomitante à interiorização das indústrias e à modernização da sociedade urbana e rural que a teoria da urbanização passa a ser formulada, colocando a ênfase na integração dos dois espaços através das trocas cada vez mais intensas entre a sociedade urbana-industrial e as pequenas aldeias rurais. Auxiliado pelo êxodo rural de grande parte da população jovem, atraída pela grande oferta de trabalho nas indústrias em crescimento e pelos valores urbanos, esse processo de urbanização do campo se realizaria através da difusão de técnicas e de hábitos de origem urbana que resultaria na perda de distinção entre a cidade e a aldeia. A diferença, como afirmaria Mendras já em 1959, passaria a ser de intensidade e não de contrastes e não mais centrada em sistemas mas em indivíduos que se ocupariam de atividades de um ou de outro tipo em uma civilização única. A dicotomia entre rural e o urbano seria diluída em um continuum.
Em contraposição tanto à visão dicotômica quanto à do continuum, alguns autores sustentam a necessidade de proceder análises mais especificas do rural, centradas nas relações sociais que se desenvolvem a partir de processos de integração das aldeias à economia global. Esse processo ao invés de diluir as diferenças pode propiciar o reforço de identidades apoiadas no pertencimento a uma localidade. Essa âncora territorial seria a base sobre a qual a cultura realizaria a interação entre o rural e o urbano de um modo específico, ou seja, mantendo uma lógica própria que lhe garantiria a manutenção de uma identidade (Chamborredon, J-C, 1980 e Rambaud, 1969 e 1981).
Nessa perspectiva, as transformações na comunidade rural, provocadas pela intensificação das trocas com o mundo urbano (pessoais, simbólicas, materiais...) não resultam, necessariamente, na descaracterização de seu sistema social e cultural como os adeptos da abordagem adaptacionista interpretavam. Mudanças de hábitos, costumes, e mesmo de percepção de mundo, ocorrem de maneira irregular, com graus e conteúdos diversificados, segundo os interesses e a posição social dos atores, mas isso não implica uma ruptura decisiva no tempo nem no conjunto do sistema social. Rambaud, em seu estudo sobre Albiez-le-Vieux, uma aldeia dos Alpes franceses, verifica que as transformações no espaço agrário, estimuladas pela expansão da exploração do turismo, não abalaram a identidade aldeã. As novas experiências engendradas contribuíram para criar uma diversidade social e cultural que é também condição de existência da sociedade na medida em que alimenta as trocas ao enriquecer os bens (culturais e simbólicos) e ampliar a rede de relações sociais. A heterogeneidade social ainda que produza uma situação de tensão, não provoca necessariamente a descaracterização da cultura local. Quando aceita pela comunidade, a diversidade assegura a identidade do grupo que experimenta uma consciência de si na relação de alteridade com os “de fora”. Estaríamos, então, diante apenas de uma releitura da abordagem dualista sustentada na oposição entre urbano e rural?
A contribuição do modelo de Placide Rambaud ao debate originário sustentado em dualidades espaciais genéricas reside na ênfase atribuída à heterogeneidade social, cultural e econômica de um sistema complexo entrecortado por relações sociais flexíveis e carregadas de conflitos que se definem a partir dos interesses dos agentes sociais com capacidades de negociação distintas. Nesse processo de integração plural da aldeia à economia e à sociedade global está presente tanto a possibilidade do núcleo rural sucumbir às pressões e interesses externos, mais potentes, como há a possibilidade de se consolidar a identidade local, aldeã, contribuindo também para perfazer a identidade da cidade. Não se trata, portanto de um processo inexorável de descaracterização dos núcleos rurais mas da sua reestruturação a partir da incorporação de novos componentes econômicos, culturais e sociais. Como diz Rambaud, “os habitantes [da aldeia] realizam inovações agrárias, turísticas, culturais, lhes permitindo se adaptar às necessidades econômicas domesticando as técnicas e a sua disposição sem colocar em causa a profundeza de sua lógica de existência e o sistema de valores” (1981:273).
Para compreender a complexidade desse processo de decomposição e recomposição de um sistema social, importa identificar a lógica que reside nos jogos de interesses e nas relações de força entre os agentes sociais. Recusando-se operar com as oposições binárias do “rural” e do “urbano”, propõe-se pensar em espaços socialmente definidos, ocupados por grupos sociais diversos que mantêm relações distintas entre si e com os “outros”. Centrando a análise sobre os agentes sociais deste processo e não mais sobre um espaço geográfico reificado, será possível observar, por exemplo, que a distinção entre “cidade” e “aldeia” ou “urbano” e “rural” desaparece ou torna-se inútil como questão sociológica. Isso porque cada espaço contém em si contradições e conflitos resultantes da relação entre sistemas de valores e interesses distintos, quer sejam eles tidos como de origem “urbana” ou “rural”.
Nesses termos, não podemos entender a ruralidade hoje somente a partir da penetração do mundo urbano-industrial no que era definido tradicionalmente como “rural”, mas também do consumo pela sociedade urbano-industrial, de bens simbólicos e materiais (a natureza como valor e os produtos “naturais”, por exemplo) e de práticas culturais que são reconhecidos como tendo a sua origem no chamado mundo rural ou agrário. Nesse sentido, importa, mais do que tentarmos redefinir as fronteiras entre o “rural” e o “urbano”, ou simplesmente ignorar as diferenças culturais contidas nessas representações sociais a partir da expansão da sociedade urbano-industrial, buscar os significados, do ponto de vista dos agentes, das práticas sociais que operacionalizam essa interação e que proliferam tanto no campo como nos grandes centros urbanos, tais como a pluriatividade, os neo-rurais, a cultura country, etc.
Por exemplo, quais os significados, para a população autóctone e para os “de fora”, das festas “caipiras” realizadas em vilarejos rurais que mobilizam um grande número de pessoas de grande centros urbanos não só no Brasil como em outros países da Europa, como a França, e que transforma a vida da população lcoal que passa a organizar a festa não apenas para o auto-consumo mas prioritariamente para os turistas?. Quais os significados das grandes exposições agropecuárias que reúnem diversos segmentos da sociedade e políticos de diferentes matizes, do vereador ao presidente da República? Que valores são reforçados e transmitidos nos eventos e manifestações da chamada cultura “country” organizados em torno de leilões de bois ou cavalos, rodeios, exposições e feiras agropecuárias que ocorrem tanto em espaços “rurais” como “urbanos”? Como observa De Paula, “no âmbito da feira [agropecuária] a cidade ‘vai para o campo’, se ruraliza; a cidade adota uma performance country ou então ainda “joga”/“desempenha” um certo jogo/script que estiliza a ruralidade” (1994:18)(De Paula, S.G. Campo e Cidade: A cultura country no Brasil contemporâneo, datil.) Na análise de de Paula, a cultura country promove uma inserção singular do rural no mundo em geral, através de uma reelaboração simbólica do rural desvencilhado da noção que o associava ao tradicional. A cultura country se desenvolve, portanto, como afirmadora da integração do mundo rural com o mundo urbano como expressão de modernidade e de modernização do rural. A autora enfatiza ainda o fato dos adeptos desta cultura no Brasil serem habitantes das cidades, diferentemente dos norte-americanos que residem em seus ranchos e freqüentam esporadicamente a cidade.
Como vemos, as noções de “rural” e de “urbano” assim como a de “ruralidade” e a dualidade que lhes é intrínseca - são representações sociais que expressam visões de mudo e valores distintos de acordo com o universo simbólico ao qual estão referidas, estando portanto sujeitas a reelaborações e a apropriações diversas. Por exemplo, integrantes da elite agrária brasileira recorrem à práticas e hábitos tidos como “rurais” mas que ressemantizados em outros contextos culturais servem à intenção de exibir e ao mesmo tempo instituir a sua face moderna. Enquanto isso, os “neo-rurais” brasileiros, motivados por valores próprios do antigo mundo rural (auto-determinação, contato com a natureza, tranqüilidade, simplificação das relações sociais), reproduzem na racionalidade produtiva e tecnológica valores urbanos, como bem o demonstra Giuliani. Para este autor, diferentes dos neo-rurais franceses que se instalam no campo seguindo o modelo de produção familiar, os “neo-rurais” brasileiros, não realizam uma ruptura com o modo de produção capitalista. Ainda que possam ter as mesmas motivações iniciais que os franceses, reproduzem aqui as relações de produção capitalistas, com o agravante de “exigirem de seus trabalhadores uma ‘racionalidade urbana’ na organização do trabalho e no processo produtivo, porém lhes impõe condições rurais ‘tradicionais’ quando se trata de salário, moradia ou jornada de trabalho” (Giuliani, 1990:65). Logo, podemos dizer que os mesmos valores privilegiados pelos “neo-rurais” franceses, ao serem recontextualizados nas estruturas sociais e históricas brasileiras, acabam por reproduzir a ideologia burguesa e um estilo de vida próximo aos padrões urbanos, só que em um outro cenário.
Nessa complexidade de universos culturais que se interpenetram, nos parece impossível delimitar as fronteiras culturais entre o “rural” e o “urbano”. Como fica, então, a questão da ruralidade no Brasil hoje?
Em uma abordagem comparativa internacional, Wanderley e Lourenço discutem o sentido da localidade na vida dos agricultores no contexto da integração à sociedade nacional e à agricultura de mercado. Seus dados apontam para os limites dos conceitos de meio rural ou sociedade rural e de sociedade englobante para explicar a sociabilidade desses agricultores. “De fato não se trata mais de englobar um microcosmo, relativamente autônomo, em um macrocosmo sócio-econômico, mas de ultrapassar as fronteiras entre o ‘local’ e o ‘global’, pela experiência de uma cidadania concreta vivida pelos agricultores” (1994:25)
Esse conjunto de reflexões nos leva a pensar a ruralidade como um processo dinâmico de constante reestruturação dos elementos da cultura local a partir da incorporação de novos valores, hábitos e técnicas. Tal processo implica um movimento em dupla direção no qual identificamos, de um lado, a reapropriação de elementos da cultura local a partir de uma releitura possibilitada pela emergência de novos códigos e, no sentido inverso, a apropriação pela cultura urbana de bens culturais e naturais do mundo rural, produzindo uma situação que não se traduz necessariamente pela destruição da cultura local mas que, ao contrário, pode vir a contribuir para alimentar a sociabilidade rural e reforçar os vínculos com a localidade. Desse encontro, como observa Rambaud, nasce uma cultura singular que não é nem rural nem urbana, com espaços e tempos sociais distintos de uma e de outra (Rambaud, 1969:32) .
Com a expansão dos meios de transporte e de comunicação, sobretudo da mídia com a sua reconhecida força formadora e divulgadora de valores da mídia, no contexto da inserção plural do agricultor e do trabalhador rural no mercado de trabalho, fica cada vez mais difícil pensar na noção de ruralidade para definir a natureza das relações sociais num espaço determinado. Contudo, essa dificuldade não nos parece invalidar a noção de localidade já que esta denota apenas a referência espacial como qualificadora de um universo de relações sociais específico. Em outras palavras, a noção de localidade não define, de forma alguma, a natureza rural ou urbana do grupo ou das práticas e relações sociais que ele desenvolve. Além disso, o sentido de localidade não estará presente em todo e qualquer espaço, ele será tão mais forte quanto mais consolidada for a identidade do grupo, ou seja, quanto mais forte for o sentimento de pertencimento a uma dada localidade. Para tal, supõe-se que a lógica de existência do grupo se sustente em um conjunto de valores tidos como identitários e que serve para distingui-lo dos demais. E na possibilidade de se estabelecer relações de alteridade como os “de fora” que reside a capacidade do grupo de definir a sua identidade sustentada no pertencimento a uma localidade. O reconhecimento de um determinado espaço como próprio ao indivíduo, à família e ao grupo mais amplo, é informado pela memória coletiva herdada de gerações anteriores. Os marcos ou pontos de apoio dessa memória são os próprios componentes da paisagem: rios, morros, montanhas, árvores...., que persistem mesmo que transformados ou destruídos pela ação do homem. A memória coletiva , informa também as mudanças adaptativas do grupo ao sugerirem respostas aos novos estímulos ou obstáculos: “um grupo que não tem memória de seu passado teria, sem dúvida, alguma dificuldade de desdobrar a imaginação de seu futura através de tomadas de consciência sucessivas (Rambaud, 1981: 274). Nesse sentido, o movimento de resgate de determinadas práticas do passado, cujo registro pertence somente aos mais velhos, pode oferecer, como veremos adiante, saídas alternativas à crise do modelo produtivista na agricultura sem contudo expressar um “retorno à tradição” ou uma “volta ao passado”. Essa recontextualização do passado, ou se quisermos, da “tradição”, que tem ocorrido em vários países da Europa Ocidental aponta para em respostas concretas e viávies (não apenas no âmbito da economia mas também da sociedade) para a crise da modernização agrícola.

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Para desenvolvermos a presente reflexão nos sustentaremos em informações resultantes de pesquisas realizadas em duas realidades distintas: uma aldeia nos Alpes franceses e duas localidades “rurais” no município de Nova Friburgo, R.J. Em ambos universos a expansão de atividades relacionadas à exploração do turismo tem introduzido novas possibilidades de trabalho, complementares ou alternativas à agricultura, e ampliado a rede de sociabilidade desses vilarejos que durante muito tempo permaneceram fechados sobre si mesmos. Para ilustrarmos nossa argumentação faremos uma breve exposição de algumas situações significativas.
Pretende-se discutir até que ponto estamos diante de um processo de construção de novas identidades sociais que não podem ser traduzidas simplesmente pela centralidade na atividade agrícola e nem pelo exercício exclusivo de uma única atividade econômica.

Na França, em estudo realizado entre os agricultores de uma aldeia dos Alpes , constatou-se uma revitalização da sociabilidade local e da própria aldeia, no que se refere aos serviços ofertados e à diversidade das atividades econômicas de seus habitantes, a partir da intensificação das relações com os “turistas”. Para efeitos de ilustração nos deteremos numa análise sucinta das festas na aldeia.
Estimulados pelo poder local a organizarem festas e atividades de lazer orientadas para atraírem turistas, boa parte da população local se vê envolvida na promoção anual de eventos desse tipo. Um grupo de pessoas reunidas em um associação cuja criação foi motivada pela intenção em promover formas de arrecadar recursos que complementariam a renda familiar, acabou se transformando no decorrer de aproximadamente 20 anos, em uma ampla rede de sociabilidade que reúne além de agricultores e pluriativos da aldeia, alguns duplo-ativos de vilas vizinhas e até mesmo turistas parisienses que passaram a frequentar com regularidade a região.
A organização de festas “à antiga” –“à camponesa”– tornou-se a marca dessa associação possibilitando um rendimento acima do permitido para um grupo que não é autorizado legalmente a promover esse tipo de atividade. Suas festas atraem um grande número de turistas promovendo a integração do ethos urbano ao ethos rural pela inversão das posições sociais, permitindo que “pessoas da cidade” se divirtam com as brincadeiras “camponesas”, jocosas e rústicas, e que os agricultores subam ao palco como atores do espetáculo numa apresentação de lambada, por exemplo. Aqui, não há separação entre o antigo e moderno, entre o público e o espetáculo: os chamados “camponeses” fazem o espetáculo e eles mesmo o consomem em conjunto com os demais habitantes das aldeias e os turistas ali hospedados.
Outro tipo de festa, as organizadas pelo escritório de turismo local, assume mais a forma de um espetáculo voltado para atrair os turistas e transmiti-los o que é genericamente tido como “rural” ou “próprio da aldeia”. Os jogos aqui são diferentes dos realizados nas “festas camponesas” pois, obedecem o esforço da coletividade de exibir uma imagem “moderna” da aldeia e de seus habitantes, onde as atrações burlescas e grotescas não têm lugar. Na sua imagem de “ruralidade” que, no caso francês, se traduz por um estilo de vida “aldeão”, tentam também manter uma face “urbana” para não chocar em demasiado os turistas e permitir que se sentam à vontade. É preciso antes de tudo atraí-los para que possam retornar ou divulgar a aldeia como lugar privilegiado de lazer e assim garantir o rendimento dos comerciantes locais e dos donos de pousadas, na sua maioria velhos camponeses aposentados.
Nessa festa combinam-se de formas distintas o “antigo”, o “atrasado”, vivido pelos protagonistas da “festa camponesa” e o “novo”, “moderno” e “urbanizado” representado na figura do próprio organizador da festa, o presidente do escritório de turismo local. Herdeiro de uma família proprietária de uma grande extensão de terras, esta pessoa transformou sua fazenda em camping e abriu uma loja de aluguel de material de esporte de inverno na estação de esqui administrada pelas municipalidades locais. Ele encarna assim a imagem do empresário moderno que vê no turismo uma alternativa para a economia local
Interessante sublinhar que neste evento, diferente do que ocorre na “festa camponesa”, alguns integrantes da Associação dos Camponeses dos 7 Lagos, aparecem fantasiados de camponeses, exibindo roupas rústicas e instrumentos antigos. Esta festa, como num ritual, marca uma ruptura temporal, enfatizando a distinção entre o “velho” e o “novo” de maneira a privilegiar a passagem para a nova era – a da modernidade – onde imperam os valores urbanos, do consumo e não mais da produção. Por isso, a presença dos “camponeses” tem de ser marcada de forma folklorizada e estigmatizada, reforçando o lugar marginal, restrito, dos elementos culturais do passado - a chamada “tradição camponesa” – na nova identidade aldeã em construção, demostrando que esta identidade recriada não está protegida das contradições resultantes das transformações por que tem passado o mundo rural.
A “festa da adeia” tem uma importância fundamental para a reestruturação da sociedade aldeã. Trata-se de um ritual que promove articulação entre a representação social do “moderno” associado à imagem do “urbano” e a do “tradicional” associado à imagem do camponês, numa espécie de síntese dos conflitos entre interesses e visões de mundo distintas. As “festas da aldeia” assim como as “festas camponesas” expressam a crise dos valores do passado associados à produção agrícola, mas revelam também a outra face da moeda. A primeira, mais do que a segunda, proclama, ao mesmo tempo, o fim do que entendem por “cultura camponesa” e a retomada de certos elementos desta mesma cultura, mas num outro contexto, num outro sistema de reconstrução da identidade aldeã quando faz emergir a dominação da lógica capitalista sobre os valores da tradicional sociedade aldeã. Esta festa, divulga a disponibilidade da aldeia em receber elementos culturais “de fora” num movimento de “aculturação livre”, nos termos de Rambaud, ou seja, sob o controle da própria comunidade, mantendo a sua autonomia sobre a forma e os limites das mudanças. Esse tipo de festa, ao contrário da outra, não se desenvolve nos moldes da auto-produção, ela se organiza como uma pequena feira que enfatiza a apropriação mercantil - através da exploração turística - de elementos de uma cultura e do espaço onde esta cultura se realiza e do consumo como forma de lazer. É importante sublinhar que nesse tipo de festa os jogos e brincadeiras são sempre individuais sendo o seu objetivo ganhar um objeto, enquanto nas festas camponesas, os jogos são coletivos e não mercantilizados.
O outro tipo de festa, conhecida como “dos camponeses”, resgata a tradição mas sem isolá-la num nicho próprio, como numa “reserva de camponeses”. Esta festa aproxima, separa, distingue e identifica pessoas numa pequena aldeia dos Alpes, aparentemente bastante homogênea. No entanto, a rede de sociabilidade assim construída ultrapassa as fronteiras da família e mesmo do aldeia integrando pessoas e elementos culturais da chamada “sociedade urbana” sem, contudo, marginalizar o lado camponês, tradicional.
A participação no processo de autoprodução liderado pelo Grupo dos Camponeses dos Sete Lagos permite reunir pessoas de localidades distintas, sejam da planície ou da montanha, operários-camponeses, agricultores aposentados ou em atividade, e mesmo funcionários da administração municipal desde que sejam filhos de agricultores. O único referencial comum a essas pessoas é a existência de um vínculo de origem com a atividade agrícola, condição única para a associação ao grupo.
Apesar dessa diversidade social, observa-se que a "auto-produção" das práticas de sociabilidade dos "Paysans des Sept Laux" permite recriar uma identidade cultural que ultrapassa as fronteiras de classe ou de categorias sociais e que é reconhecida localmente como "camponesa". Mas, se de um lado, essas práticas reforçam uma identidade cultural, de outro, não é menos verdade que tal "identidade" é manipulada como pretexto para se criar ou recriar formas de sociabilidade numa aldeia que, caso contrário, ou seja, se seguisse a mesma trajetória das suas vizinhas, teria se transformado num deserto social.

Na mesma aldeia, a crise da superprodução de leite decorrente da aplicação, pelo governo, do modelo produtivista, resultou em várias tentativas de diminuir a produção o que, consequentemente, gerou novas crises, desta vez de fundo social, que se refletiram diretamente nas formas de vida da população de pequenos agricultores das aldeias de montanha. Ameaçados de perderem a sua função social e econômica, como produtores de leite, esses agricultores se recusaram a aceitar a marginalização social decorrente das políticas voltadas para o encerramento das unidades produtivas consideradas inviáveis. Rejeitando a perspectiva de serem transformados em “jardineiros da natureza”, essa população recria um conjunto diversificado de formas alternativas de reprodução social voltadas para uma nova realidade onde a produção agrícola deixa de ser fonte de renda exclusiva assim como deixa de ser orientada totalmente pelas demandas do mercado nacional e internacional. Novos produtos são estimulados pelo incremento do turismo local, tais como: o queijo e outros produtos chamados “da fazenda”, tidos como “naturais” por sua forma de fabricação - artesanal - e sem agrotóxicos (geléias, yogurtes, patés, frangos e mesmo refeições congeladas). Essa criatividade em novas formas de produção são sustentadas, em parte, pela recuperação de um saber “tradicional” que teria sido negado e “esquecido” pelo processo de modernização maciça dos anos 60.
Recorrendo à memória dos antigos participantes das alpages - onde se fabricava um tipo de queijo específico da montanha - é criada uma pequena associação de esposas de agricultores para fabricar e comercializar esse tipo de queijo. Com a permissão do governo para utilizarem a produção excedente do leite de suas fazendas, essas mulheres criam todo um sistema de produção coletiva do queijo que envolve também um fabricante de um cidade vizinha até a comercialização do produto nas estações de esqui e em lojas de “produtos naturais” das cidades vizinhas. Além de contribuir para aumentar a renda familiar, essa atividade estimula, ao mesmo tempo, o convívio social entre os vizinhos, fortalecendo os laços de solidariedade local e reforçando o sentimento de pertencimento à aldeia.
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No outro universo de pesquisa, na região serrana do Rio de Janeiro, a expansão da exploração turística abre novas possibilidades de trabalho para o conjunto da mão de obra familiar, contribuindo para o aumento da renda familiar e para uma visível melhoria das condições de vida de parte da população rural que, ao ter garantida uma renda fixa e razoavelmente estável em sua própria localidade de origem, abandona o projeto de migração em busca de emprego e salário na cidade. As condições no campo passam então a serem realmente mais atraentes: salário para um ou vários membros da família, benefícios sociais garantidos com a carteira assinada, possibilidade de se dedicar a várias atividades remuneradas ao mesmo tempo, já que as atividades de prestação de serviços aos turistas os ocupam basicamente nos finais de semana, uma rede de solidariedade apoiada nos laços de parentesco, amizade e vizinhança e, o que contribui definitivamente para diminuir as despesas em relação à alternativa da migração para a cidade – a possibilidade de poder contar com um local de residência sem pagamento de aluguel já que sempre se mantém um pequeno lote com a casa de morada. Esta muitas vezes passa a ser o símbolo da nova condição social, tomando mais importância que anteriormente, quando a atividade agrícola era a fonte exclusiva de renda. Assim, a residência vai, pouco a pouco, se transformando e assumindo característica definidas como “urbanas”, num processo longo e, talvez interminável, de reformas. Externamente, a antena parabólica e a fachada azulejada com esquadrias de alumínio são as marcas de distinção que sugerem adoção dos novos padrões. Internamente, o conjunto de estofados, os móveis da sala de jantar e os aparelhos eletro-domésticos complementam a distinção para aqueles que “melhoraram de vida”.
Conscientes de que a hora de trabalhado consagrada às atividades não agrícolas é melhor remunerada que a ocupada pela produção agrícola, pequenos proprietários sem condições de investir em alternativas mais rentáveis são levados a vender suas propriedades, que são transformadas em sítios de lazer, e a se assalariarem nas funções de jardineiro ou de caseiro, muitas vezes na sua ex-propriedade.
A procura por terras para a construção de “casas de campo” reorienta as estratégias familiares de transmissão do patrimônio. Ao se desassociar da produção agropecuária e do valor simbólico associado à família, a terra assume o valor exclusivo de mercadoria sendo facilmente repartida e vendida aos turistas, muitas vezes, no mesmo ato de partilha da herança, “para economizar as despesas de cartório”. Assim a terra passa diretamente do pai aposentado, ou da mãe viúva, para um “de fora”, sendo que o rendimento da transação é apropriado pelo filho herdeiro que não experimenta mais a posição de agricultor independente.
Apesar da proximidade entre o município de Nova Friburgo e a cidade do Rio de Janeiro, grande mercado consumidor de hortifrutigranjeiros, os distritos de São Pedro da Serra e Lumiar, onde foi realizada a pesquisa, apresentam um longa história de esforço de seus agricultores pela manutenção da atividade agrícola, atualmente centrada no cultivo do inhame – principal produto – e de outros em menor quantidade como banana, couve flor, batata doce, repolho, pimentão, tomate, feijão, milho... que são produzidos por cerca de 530 famílias.
A grosso modo é possível reconhecer três tipos de agricultores na região.
O agricultor tradicional encontra no baixo índice de mercanização associado à baixa qualidade dos solos, à áreas reduzidas, à topografia acidentada e à ausência de créditos, motivos suficientes para o desestímulo. Mantendo uma atividade insipiente, tem sua reprodução social constantemente ameaçada pela falta de competitividade de seus produtos, mesmo no mercado regional mais próximo (o de Nova Friburgo), orientando-os para o consumo doméstico e para o mercado local. Parte desses agricultores está abandonando a atividade agrícola o que tem sido estimulado pela expansão do turismo na região. Sem estímulo e condições para aumentar a produção, vendem seus pequenos lotes para se tornarem jardineiro ou caseiro. Outros complementam a renda agrícola com a prestação de pequenos serviços à população de turistas: os homens como auxiliares de pedreiros ou jardineiros, as mulheres como lavadeiras ou domésticas. Dadas as suas condições de produção, suas propriedades não são vistas como um capital produtivo de onde poderia se tirar um rendimento financeiro, mas como uma reserva de capital que será utilizada assim que chegar a hora e se encontrar um comprador, o que dependerá, nas condições atuais, não mais de suas qualidade para a produção agrícola mas do que é valorizado pelos turistas: facilidade de acesso por carro, proximidade do centro da aldeia e natureza exuberante. Para os que tem algum capital, a construção de casas para aluguel à turistas tornou-se uma alternativa significativa.
A agricultura tradicional também é exercida por não proprietários que exploram um lote na terra de outros na condição de meeiro. Alguns desses investem o que recebem na atividade agrícola na construção de “casas de aluguel”. Das famílias de meeiros (conhecidos localmente como “colonos”) sai o maior contingente de jovens que irá responder a demanda de trabalho gerada pela exploração turística. Para esses, o projeto de futuro não passa mais pela agricultura devido muito menos à vontade do que ao reconhecimento das dificuldades existentes:
Trabalhar de pedreiro dá mais dinheiro. É o seguinte, eu tô trabalhando a R$30,00 a diária. Aí eu trabalho 10 dias, dá R$300,00. Na lavoura eu tenho que trabalhar 20 dias, 30 dias prá ganhar isso, só que o trabalho da lavoura é mais gostoso, eu acho melhor. Você trabalha à vontade, não precisa ter tanta ciência no trabalho, você não precisa tomar tanta atenção como é na obra (duplo-ativo: meeiro-pedreiro, 25 anos).

A categoria dos pluriativos, como em todo lugar, é ambígua e heterogênea em sua origem e conformação. Aqui ela inclui aqueles que, por ausência de meios ou de vontade, não adotaram o modelo de agricultura modernizada, optando por manter uma agricultura articulada a outras atividades que lhes possibilitam uma renda superior à renda agrícola. O que distingue essa categoria dos agricultores tradicionais é muito mais uma visão empreendedora voltada para a explorações recursos e das novas oportunidades locais cuja renda pode ou não reverter para um investimento futuro na agricultura. Alguns desses produtores podem abandonar a atividade agrícola conforme o sucesso de sua atividade extra-agrícola que está normalmente relacionada ao turismo, tais como: pequenas pousadas ou restaurantes, prestação de serviços para os novos proprietários rurais de origem urbana, pequeno comércio...
Cabe registrar que a exploração do turismo praticado pelos agricultores reproduz a mesma lógica familiar que organiza a produção agrícola. A pousada é construída com o próprio capital familiar recorrendo aos saberes polivalentes dos membros da família. A manutenção e o atendimento aos turistas também fica a cargo da mão de obra disponível na família sendo controlada e regulada pelo parentesco. A produção do lucro é dependente das potencialidades familiares não sendo necessariamente o objetivo principal do empreendimento que, ao menos nessa fase inicial em que se encontra a exploração turística local, está mais orientado para a constituição de uma atividade econômica alternativa à agricultura e que abra perspectivas de trabalho para os membros da família respeitando o valor da auto-determinação da cultura camponesa. Mesmo as raras iniciativas de capital vindo de fora se subordinam, por enquanto, às dimensões e formas de organização dominantes na região.

As características da industrialização e das oportunidades do mercado de trabalho da cidade de Nova Friburgo influenciam também o tipo de atividades complementares exercidas nos distritos, sobretudo para as mulheres. A existência de um grande número de indústrias têxteis, principalmente de roupas íntimas, fez com que a cultura local se adaptasse ao novo mercado. A pesquisa revelou o costume antigo, comum às mulheres de algumas famílias, de se dedicarem à costura como um forma de complementação de renda, ainda que restrita ao círculo de vizinhos. Atualmente essa prática se transformou em confecção de roupas íntimas, sob diferentes tipos de contratos, articuladas a comerciantes não apenas de Nova Friburgo mas de cidades mais distantes. Há também um pequeno número de confecções locais, independentes, que fornecem para o comércio local favorecido pela presença de turistas.
contingente de agricultor modernizado ou em vias de modernizar-se é em número bem menor nessas localidade. Os poucos produtores nessa categoria se sustentam, como os demais, na mão de obra familiar auxiliada por alguns poucos trabalhadores sob os sistema de parceria. Eles se destacam dos demais sobretudo pela íntima relação com o mercado regional – o que pode ser observado no volume e na qualidade da produção – pela mecanização e pela utilização de técnicas aprimoradas. Além disso se distinguem pela posse de meios de transporte que viabiliza não apenas a comercialização de seus produtos como também garante um suplemento da renda na comercialização da produção de vizinhos. Destacam-se também por dominarem razoavelmente o cálculo financeiro.
A observação de Pernet para o caso francês pode ser útil para entendermos a lógica de inserção desses agricultores na economia e na sociedade. Para Pernet, a forma de inserção de cada um desses agricultores à economia e à sociedade global define uma racionalidade e uma lógica de funcionamento específica para cada tipo de agricultura que se desenvolve, o que se expressa na maneira como se relacionam com o trabalho, com a propriedade dos meios de produção e com o progresso técnico (Pernet, 1990). Este autor reconhece espaços econômicos e sociais diferenciados para cada tipo de agricultor que são seus espaços de atuação e de articulação com o sistema social e econômico global (mercados, aparelho do Estado, aparelho agro-industrial...).
Essa noção de esferas de reprodução, estruturadas social e economicamente de formas distintas nos ajuda a pensar a ruralidade e a localidade hoje. Dentro desses territórios encontram-se redes de sociabilidades que se sobrepõem mas não se confundem. Para o agricultor tradicional esse espaço pode ser reduzido à “localidade”, ou seja, ao círculo da vizinhança, do comércio e das relações políticas mais próximas em termos geográficos, confundindo-se com as redes de amizade e de parentesco. Já os agricultores modernizados assim como parte dos pluriativos mantém relações mais diversificadas e mais freqüentes com instâncias de territórios mais amplos: rede de comercialização, sistemas de informações técnicas e de financiamento de amplitude regional no primeiro caso e, pessoas de classe média urbana no segundo caso.

Considerações finais







Nesses termos assumo como hipótese de trabalho, inspirada em Giovanni Lévi (Le pouvoir au village. Gallimard, Paris, 1989), que existe uma “racionalidade camponesa” que não se trata de um modelo cristalizado, uniforme e a-histórico, no sentido de um cultura específica e universal, mas no sentido de uma visão de mundo pautada em relações sociais específicas e que se expressa ativamente, de forma a transformar e a recriar o seu mundo social e natural. É nesse contexto que, acredito, devemos produzir novos conhecimentos e entender a transferência de informação tecnológica no ambiente cultural dos pequenos produtores agrícolas. É nesse contexto que devemos entender também o fenômeno reconhecido como pluriatividade.
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domingo, 14 de março de 2010

Grifes de luxo se rendem ao marketing verde para conquistar novos clientes

No mundo todo, as grandes marcas de luxo sempre foram conhecidas por sua incrível e glamourosa capacidade de lançar tendências. Basta que um acessório, cor ou tecido seja apresentado com sucesso nas passarelas para a novidade ser copiada em pequenas oficinas do interior da China ou nas maiores redes de varejo de roupa dos Estados Unidos. A recente crise econômica que abateu boa parte da economia dos países desenvolvidos e o surto de comedimento gerado por ela, no entanto, inverteram esse processo. Agora, são justamente as grandes grifes que perseguem uma “moda”: a da sustentabilidade. Mais do que sentir um repentino amor pelas florestas ou por comunidades de países devastados por guerras e pela miséria, essas companhias foram, digamos, sensibilizadas por uma lógica puramente econômica. Nos últimos dois anos, segundo dados da consultoria Bain & Company, o mercado de luxo sofreu retração de mais de 10% – uma conta de quase 25 bilhões de dólares. A expectativa dos analistas é que as vendas só retornem aos níveis de 2008 em 2012. Para enfrentar esses tempos bicudos, as marcas de luxo encontraram no apelo ecológico e na postura politicamente correta a maneira mais eficiente de fazer com que o consumidor não se sinta tão culpado ao desembolsar uma pequena fortuna por uma bolsa ou um vestido. “O ‘verde’ tornou-se o novo ‘pretinho básico’ do setor de luxo”, afirma Manfredi Ricca, diretor da consultoria Interbrand em Milão. Entre os jovens, esse apelo é ainda mais eficiente. Uma pesquisa feita pela consultoria Luxury Institute de Nova York com mais de 1 000 pessoas entre 18 e 25 anos de idade mostrou que quase 60% delas buscam informações sobre sustentabilidade antes de decidir a compra de um item de luxo – ante 40% da média dos americanos.
No mundo todo, as grandes marcas de luxo sempre foram conhecidas por sua incrível e glamourosa capacidade de lançar tendências. Basta que um acessório, cor ou tecido seja apresentado com sucesso nas passarelas para a novidade ser copiada em pequenas oficinas do interior da China ou nas maiores redes de varejo de roupa dos Estados Unidos. A recente crise econômica que abateu boa parte da economia dos países desenvolvidos e o surto de comedimento gerado por ela, no entanto, inverteram esse processo. Agora, são justamente as grandes grifes que perseguem uma “moda”: a da sustentabilidade. Mais do que sentir um repentino amor pelas florestas ou por comunidades de países devastados por guerras e pela miséria, essas companhias foram, digamos, sensibilizadas por uma lógica puramente econômica. Nos últimos dois anos, segundo dados da consultoria Bain & Company, o mercado de luxo sofreu retração de mais de 10% – uma conta de quase 25 bilhões de dólares. A expectativa dos analistas é que as vendas só retornem aos níveis de 2008 em 2012. Para enfrentar esses tempos bicudos, as marcas de luxo encontraram no apelo ecológico e na postura politicamente correta a maneira mais eficiente de fazer com que o consumidor não se sinta tão culpado ao desembolsar uma pequena fortuna por uma bolsa ou um vestido. “O ‘verde’ tornou-se o novo ‘pretinho básico’ do setor de luxo”, afirma Manfredi Ricca, diretor da consultoria Interbrand em Milão. Entre os jovens, esse apelo é ainda mais eficiente. Uma pesquisa feita pela consultoria Luxury Institute de Nova York com mais de 1 000 pessoas entre 18 e 25 anos de idade mostrou que quase 60% delas buscam informações sobre sustentabilidade antes de decidir a compra de um item de luxo – ante 40% da média dos americanos.

O primeiro a aderir ao “luxo com consciência” foi o grupo LVMH, dono de marcas como Louis Vuitton e Dior. Em maio de 2009, o maior conglomerado de luxo do mundo adquiriu 50% de participação na grife de moda Edun. Criada pelo popstar engajado Bono Vox, vocalista da banda U2, a grife nasceu para promover o desenvolvimento em países pobres – o algodão usado nas peças, por exemplo, é cultivado por pequenos produtores da África. No mês seguinte, o grupo rival PPR, dono das marcas Gucci e Yves Saint Laurent, patrocinou um documentário de 1 hora e meia sobre a devastação do planeta, exibido em mais de 100 países. Pouco tempo depois, a joalheria Tiffany enfeitou com corais sintéticos as vitrines de suas lojas em todo o mundo só para deixar claro que não usa corais verdadeiros, hoje sob risco de extinção, em suas joias. Em outubro, foi a vez da aristocrática fabricante de carros Bentley lançar seu primeiro modelo com motor flex, o Continental Supersports, por “módicos” 270 000 dólares – nas últimas semanas, a Lincoln, divisão de luxo da Ford, anunciou que pretende fazer o mesmo. Nessa corrida, algumas ideias beiram a bizarrice. A italiana Ermenegildo Zegna lançou, em 2008, um casaco de couro com pequenos painéis solares nas mangas, utilizados para abastecer uma bateria que aquece a gola da roupa. “A sustentabilidade é a grande aposta das marcas de luxo para continuar crescendo”, diz Ricca. “É dessa maneira que elas pretendem se diferenciar dos concorrentes.”

Uma das estratégias mais estruturadas é a da Cartier, responsável pela compra de 1% de todo diamante usado em joias no planeta. A empresa francesa mobilizou o Responsible Jewellery Council, que reúne 150 fabricantes de joias, para convencer todos os associados a exigir de seus fornecedores uma certificação ambiental e social – de modo a garantir que as pedras preciosas utilizadas em suas peças não tenham nenhuma ligação com zonas de conflito, sobretudo na África. “Depois do filme Diamante de Sangue, em 2006, passamos a ser questionados nas lojas a respeito da procedência das pedras”, diz Pamela Caillens, diretora de responsabilidade corporativa da Cartier. “Apesar de nossos diamantes não serem provenientes de zonas de conflito, decidimos dar um passo além e mostrar aos consumidores que somos uma empresa limpa.”

Embora o ímpeto sustentável tenha se intensificado de 2009 para cá, algumas marcas de luxo já se aventuravam numa espécie de marketing ecológico há pelo menos cinco anos. Os resultados, no entanto, foram medíocres. Em 2004, na tentativa de reduzir suas emissões de poluentes, a LVMH diminuiu o número de viagens corporativas e pôs fim ao transporte aéreo de seus produtos. A PPR, por sua vez, alardeou a criação de uma diretoria de responsabilidade social só para cuidar de temas como meio ambien te e diversidade. Uma pesquisa realizada pela ONG ambientalista WWF em 2007, porém, jogou um balde de água fria nesses projetos. No ranking de sustentabilidade da organização, a nota máxima obtida pelas grifes de luxo foi um tímido C+, dado à LVMH, à Hermès e à L’Oréal (a PPR ficou com um D). Nesse grupo de pioneiros – geralmente malsucedidos -, a alemã BMW é exceção. A empresa vem investindo no desenvolvimento de tecnologias limpas desde 1995 e hoje é considerada a montadora com o melhor programa de redução de CO2 pela Federação Europeia para Trans porte e Meio Ambiente. Além de reduzir quase 30% das emissões de seus 27 modelos, a BMW tomou iniciativas como usar gás metano de aterros sanitários para gerar energia para suas fábricas. “A maior parte das marcas de luxo reconhece a importância da sustentabilidade”, afirma Jem Bendell, conselheiro do WWF e um dos cria dores do ranking. “O problema é que elas não sabem ao certo como colocar isso em prática.”

Apesar do engajamento demonstrado pelas marcas de luxo, ainda é cedo para saber se o apelo ecológico veio mesmo para ficar – ou se não passa de mero paliativo para enfrentar os tempos duros. “Como nenhuma dessas empresas revela quanto, de fato, vem sendo investido, fica difícil saber quão comprometidas elas realmente estão”, diz Carlos Ferreirinha, diretor da consultoria MCF, especializada no setor de luxo. Nesse caso, o maior pesadelo para uma grife de luxo seria a acusação de greenwash, termo que designa empresas que apenas simulam um compromisso com a sustentabilidade. A Mercedes-Benz pagou um preço alto por fazer uso desse expediente. Em setembro, a montadora anunciou com estardalhaço na Inglaterra sua nova linha de modelos E-Class, com índices de emissão de gás carbônico abaixo de 139 gramas por quilômetro rodado (a nova lei da União Europeia prevê que as emissões sejam reduzidas a 140 g/km até 2012). O que a Mercedes “esqueceu” de avisar foi que isso só era possível em duas das 24 combinações de câmbio, combustível e motor apresentadas pelo carro. O anúncio foi suspenso pela Advertising Standards Authority, o Conar britânico, mas o estrago já havia sido feito. Blogs especializados foram inundados de críticas à montadora. “Comprar um produto ‘pintado de verde’ é muito mais grave quando se trata do mercado de luxo”, diz Ferreirinha. “O consumidor pa ga uma fortuna por um bem graças, sobretudo, à reputação da empresa.” O dinheiro, nesse caso, compra a tranquilidade.
Muito luxo, pouca culpa
O que algumas marcas de prestígio estão fazendo para conquistar uma aura sustentável:
Empresa: Cartier
O QUE FEZ
Lidera um programa mundial de certificação na exploração de pedras preciosas. A ideia é que a exploração de ouro e o diamante de suas joias não seja feita em zonas de conflito nem utilize mão de obra infantil, sobretudo na África.
Empresa: Tiffany
O QUE FEZ
Deixou de empregar corais na fabricação de suas joias. Para alardear o feito, montou vitrines no mundo todo (inclusive no Brasil) com peças sintéticas, imitando corais verdadeiros.
Empresa: Bentley
O QUE FEZ
Lançou seu primeiro modelo com motor flex, o Continental Supersports, em outubro. Segundo a montadora, o carro emite 70% menos CO2 se considerada toda a cadeia do etanol, desde a produção até a queima do combustível.
Empresa: PPR
O QUE FEZ
Além de ser dona da grife Stella McCartney, que não utiliza couro nem peles naturais em suas peças, patrocinou um documentário de 1 hora e meia sobre a devastação do planeta. O filme foi exibido em mais de 100 países.
Empresa: LVMH
O QUE FEZ
Adquiriu 50% da grife de moda Edun. A marca, criada pelo cantor Bono Vox e sua mulher, nasceu com o propósito de ajudar no desenvolvimento de países pobres. Suas roupas são feitas com algodão de lavouras de Uganda, do Quênia e da Índia.

Fonte: Por João Werner Grando, in Portal Exame.
Texto originalmente publicado na Revista EXAME de 24/02/2010

sábado, 13 de março de 2010

ISO 14000

O que fazer para a empresa obter um Certificado ISO 14000?
Ela deverá possuir um sistema de Gerenciamento Ambiental (SGA)!
COMO isso pode ser feito?Há regras!!
A ISO 14000 é uma norma elaborada pela International Organization for Standardization, com sede em
Genebra, na Suíça, que reúne mais de 100 países com a finalidade de criar normas internacionais. Cada
país possui um órgão responsável por elaborar suas normas. No Brasil temos a ABNT, na Alemanha a
DIN, no Japão o JIS, etc. A ISO é internacional e por, essa razão, o processo de elaboração das normas é
muito lento, pois leva em consideração as características e as opiniões de vários países membros.
Todo o processo de elaboração da ISO 14000 foi semelhante ao que aconteceu com a ISO 9000 – Normas
para o Sistema de Garantia da Qualidade.
Na verdade, é um erro dizer que uma empresa recebeu o certificado ISO 9000, pois não existe certificação
baseada nessa ISO, mas sim, na 9001, 9002 ou 9003.
A ISO 9000 estabelece as diretrizes para selecionar qual norma deve ser usada em determinada empresa,
enquanto que a ISO 9001, 9002 e 9003 são as normas que determinam quais são as
especificações/requisitos que as empresas deverão seguir e atender para que possam obter a certificação
através de auditoria realizada por um organismo Certificador.
A ISO 14000 segue a mesma sistemática, ou seja, não haverá certificação ISO 14000, mas, sim, uma
certificação baseada na 14001, norma esta que é a única da família ISO 14000 que permitirá ter um
certificado de Sistema de Gerenciamento Ambiental (SGA).
A ISO 14000 – Sistema de Gestão Ambiental – Especificações com Guia para uso, estabelece requisitos
para as empresas gerenciarem seus produtos e processos para que eles não agridam o meio ambiente, que
a comunidade não sofra com os resíduos gerados e que a sociedade seja beneficiada num aspecto amplo.
Então, para a empresa obter um certificado ISO 14000, ou melhor, certificado ISO 14001, é necessário
que atenda as seguintes exigências:
1 – Política ambiental
A direção da empresa deve elaborar uma Política Ambiental que represente seus produtos e serviços, que
seja divulgada entre os funcionários e a comunidade. E que a direção demonstre que está comprometida
com o cumprimento dessa política.
Deve obter o cumprimento legal e buscar o melhoramento contínuo do desempenho ambiental da
empresa.
2 – Aspectos ambientais
A organização precisa ter procedimentos que permitam identificar, conhecer, administrar e controlar os
resíduos que ela gera durante o processamento e uso do produto: Emissões Atmosféricas, Efluentes
Líquidos e Resíduos Sólidos.
3 – Exigências legais
A empresa deve desenvolver uma sistemática para obter e ter acesso a todas as exigências legais
pertinentes a sua atividade. Essas exigências devem ficar claras à direção da empresa.
Os funcionários devem conhecer quais são essas exigências e quais as documentações necessárias para
seu cumprimento.
4 – Objetivos e metas
A empresa deve criar objetivos e metas que estejam alinhados com o cumprimento da política ambiental
que foi definida.
Esses objetivos e metas devem refletir os aspectos ambientais, os resíduos gerados e seus impactos no
meio ambiente. Também deve considerar exigências legais e outros aspectos inerentes ao próprio
negócio.
5 – Programa de gestão ambiental
A organização deve ter um programa estruturado com responsáveis pela coordenação e implementação de
ações que cumpram o que foi estabelecido na política ambiental e as exigências legais, que atinjam os
objetivos e metas e que contemplem o desenvolvimento de novos produtos e novos processos.
Este programa deve, inclusive, prever ações contingenciais, associadas aos riscos envolvidos e aos
respectivos planos emergênciais.
6 – Estrutura organizacional e responsabilidade
O Programa de Gestão Ambiental deve integrar as funções dos funcionários da empresa, através da
descrição de cargos e funções relativas à questão ambiental.
A empresa deve possuir um organograma que demonstre que suas inter -relações estão bem definidas e
comunicadas em toda a empresa.
A direção da empresa deve definir um ou mais profissionais para que seja o representante dos assuntos
específicos da Gestão Ambiental.
7 – Conscientização e treinamento
O programa de Gestão Ambiental deve prover treinamento aos funcionários com atribuições na área
ambiental, para que estejam conscientes da importância do cumprimento da política e objetivos do Maio
Ambiente, das exigências legais e de outras definidas pela empresa.
O treinamento também deve levar em consideração todos os impactos ambientais reais ou potenciais
associados as suas atividades de trabalho.
8 – Comunicação
A empresa deve possuir uma sistemática para enviar e receber comunicados relativos às questões
ambientais para seus funcionários e a comunidade.
9 – Documentação do Sistema de Gestão Ambiental
A empresa precisa ter um Manual dos Sistema de Gerenciamento Ambiental que contenha as exigências
ambientais da empresa.
10 – Controle de documentos
A empresa deve manter um sistema bem parecido com o controle de documentos da ISO 9000, ou seja,
procedimentos para que todos os documentos sejam controlados e assinados pelos responsáveis, com
acesso fácil aos interessados, para manter atualizados, identificados, legíveis e armazenados
adequadamente. Os documentos obsoletos também devem ser retirados do local para evitar uso indevido.
11 – Controle operacional
A organização precisa ter procedimentos para fazer inspeções e o controle dos aspectos ambientais,
inclusive procedimentos para a manutenção e calibração dos equipamentos que fazem esses controles.
12 – Situações de emergência
A empresa deve possuir procedimentos para prevenir, investigar e responder a situações de emergência.
Também deve ter planos e funcionários treinados para atuar em situações de emergência.
13 – Monitoramento e avaliação
A organização deve ter um programa para medir o desempenho ambiental através da inspeção das
características de controle ambiental e calibração dos instrumentos de medição para que atendam aos
objetivos e metas estabelecidos.
14 – Não conformidade, ações corretivas e ações preventivas
A empresa deve definir responsáveis com autoridade para investigar as causas das não-conformidades
ambientais e tomar as devidas ações corretivas e preventivas.
15 – Registros
A organização precisa arquivar todos os resultados de auditorias, análises críticas relativas as questões
ambientais. O objetivo de ter esses registros é mostrar e provar, a quem quer que seja, que a empresa
possui um Sistema conforme o que é exigido pela norma.
16 – Auditoria do Sistema da Gestão Ambiental
A organização precisa ter um programa de auditoria ambiental periódica e os resultados das auditorias
devem ser documentados e apresentados à alta administração da empresa.
17 – Análise crítica do Sistema de Gestão Ambiental (SGA)
Baseado nos resultados da auditoria do SGA, a organização deve fazer uma análise crítica do Sistema de
Gestão Ambiental e as devidas alterações, para que atenda as exigências do mercado, clientes,
fornecedores e aspectos legais, na busca da melhoria contínua.
Você pode adquirir a norma no site da ABNT (http//:www.abnt.org.br)!!
SUCESSO!!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Norma da ABNT estabelece diretrizes para uma gestão sustentável

O turismo é um fator importante para a economia mundial e vem sendo objeto de estudo para se conseguir um desenvolvimento sustentável, já que interfere diretamente em aspectos ambientais, sociais e econômicos de uma região.

Acompanhando o desenvolvimento dessa área, novas normas de qualidade são desenvolvidas para que se a manutenção adequada de uma gestão sustentável seja respeitada.

Uma dessas medidas, uma das mais importante em âmbito nacional, é a norma ABNT NBR 15401 produzida pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e sua Comissão de Estudo de Turismo Sustentável. Ela tem o objetivo de estabelecer diretrizes para uma gestão sustentável em empreendimentos hoteleiros.
Esta norma toma como base um ciclo denominado PDCA, que traz em suas siglas (em inglês) as seguintes descrições:

Plan (Planejar): planejamento de objetivos e estabelecimento de metas para alcançar resultados que estejam de acordo com a política de sustentabilidade;
Do (Implementar): implantação dos processos;
Check (Verificar): checagem e monitoramento dos resultados;
Act (Agir): ação de forma contínua no aperfeiçoamento do sistema de gestão.
Objetivo e princípios

A ABNT NBR 15104 tem como principal objetivo especificar e estabelecer critérios mínimos de desempenho relativos à sustentabilidade para o turismo. Para, assim, permitir que empreendimentos hoteleiros formulem uma política que levem em consideração as informações referentes aos impactos ambientais, socioculturais e econômicos.

De acordo com a norma, a sustentabilidade do turismo é fundamentada por um conjunto de princípios, que constituem a referência nacional para o Turismo Sustentável. São eles:

Respeitar a legislação vigente em todos os níveis nacionais e internacionais, aos quais o país é signatário;
Garantir os direitos das populações locais, promovendo ações de responsabilidade social, ambiental e equidade econômica;
Conservar o ambiente natural e sua biodiversidade, adotando práticas de mínimo impacto sobre o meio ambiente e monitorando esses impactos;
Reconhecer e respeitar o patrimônio cultural e valores locais e colaborar para o seu desenvolvimento;
Estimular o desenvolvimento social e econômico dos destinos turísticos
Garantir a qualidade dos produtos, processos e atitudes, por meio de avaliações da satisfação do turista e verificação da adoção de padrões de qualidade;
Estabelecer o planejamento e a gestão responsáveis de forma ética, visando engajar a responsabilidade social, econômica e ambiental de todos os integrantes da atividade.
A ABNT disponibiliza a norma com mais detalhes e informações para gestores interessados em implementá-la.


Fachada do Hotel Lençóis, na Chapada Diamantina / Foto: Divulgação

Hotéis certificados

Disponível no Brasil a partir de novembro de 2006, até agora a norma só certificou dois hotéis, ambos em Lençóis, na Chapada Diamantina, Bahia. O certificado mais recente foi concedido ao Hotel de Lençóis. Este trabalha de forma sustentável desde 1982, mas foi depois da norma que alinhou ainda mais sua gestão aos princípios da sustentabilidade.

“Nós aperfeiçoamos os cuidados com o meio ambiente através da reciclagem de lixo, da compra de madeira certificada, do uso de lâmpadas de baixo consumo e da implantação de energia solar”, afirmou o funcionário do hotel, Antônio Lima.

A certificação do hotel traz o respeito, mas também a vigilância do turista durante a sua estadia. “Na nossa caixa de sugestões, os hóspedes sempre deixam recados quando alguma coisa está mal orientada, reclamam quando usamos papel não reciclável e opinam sobre os lençóis e toalhas”, complementou Lima.

Em busca de credibilidade

As empresas turísticas estão cada vez mais interessadas em demonstrar o seu cuidado com o meio ambiente e buscam maneiras de gerir com responsabilidade ambiental, para ganhar credibilidade frente aos seus clientes.

Esse é um reflexo de uma sociedade cada vez mais preocupada com as questões ambientais e que começa a criar políticas de proteção destinadas a regular a qualidade e o desenvolvimento das organizações, de uma forma sustentável.

Através do sistema de gestão ambiental ISO 14001, o Brasil tem uma ferramenta de sustentação que auxilia o desempenho e a manutenção dos empreendimentos turísticos sustentáveis brasileiros.

Disponível em: http://www.ecodesenvolvimento.org.br/noticias/norma-da-abnt-estabelece-diretrizes-para-uma

quarta-feira, 10 de março de 2010

Minas sem lixões divulga resultado do Prêmio de Gestão de Resíduos

Concurso “Sustentabilidade e Gestão Ambiental Municipal de Resíduos Sólidos Urbanos” reconhece os melhores projetos de Minas Gerais




Troféus serão entregues aos vencedores no dia 23 de março,


Por Luciana Arantes, Programa Minas sem lixões
Barão dos Cocais, Belo Horizonte e Ibirité conquistam o II Prêmio Estadual – Sustentabilidade e Gestão Ambiental Municipal de Resíduos Sólidos Urbanos, promovido pelo programa Minas sem lixões, por meio das fundações Estadual do Meio Ambiente (Feam) e Israel Pinheiro (FIP). A cerimônia para a entrega dos troféus será no dia 23 de março, no Centro Mineiro de Referência em Resíduos (CMRR), que também apoia o concurso. No total, foram enviados 12 projetos de prefeituras, instituições públicas e privadas, ONGs e entidades de ensino, com foco na inclusão social e na não geração de resíduos, reúso e reciclagem em Minas Gerais.

Na segunda edição do prêmio, o primeiro lugar ficou com a Prefeitura de Barão de Cocais que, desde 2006, desenvolve o Projeto Reciclar “Separe o lixo, recicle a vida”. Como resultado dessa iniciativa, várias ações já foram implementadas no município, com destaque para a mobilização dos catadores, fim do lixão, licenciamento do aterro sanitário e lançamento da coleta seletiva. “Ganhar esse prêmio é a valorização de um projeto socioambiental que gera melhorias para toda a sociedade. A responsabilidade social e a preservação ambiental significam o comprometimento com a vida e são indicadores de que estamos no caminho certo”, ressalta o secretário de Meio Ambiente de Barão de Cocais, Nivaldo Nunes, que aponta como desafios para 2010 a construção de um novo galpão e a ampliação da coleta seletiva, inclusive para as localidades rurais.

O projeto Carroceiros, da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU) da Prefeitura de Belo Horizonte em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), conquistou o segundo lugar. Criado em 1998 com o objetivo de reduzir a disposição inadequada de resíduos sólidos na malha urbana da capital, a iniciativa tem como eixo central ações educativas para orientar os carroceiros sobre meio ambiente, formas de associação e trato com o animal. Uma vez por ano, os cavalos recebem atendimento clínico, com vacinação, controle parasitológico, entre outros exames. “Por ano, cerca de 450 cavalos são atendidos. Desde 1998, mais de 3,8 mil animais já foram envolvidos no projeto”, afirma o engenheiro do Departamento de Projetos Especiais da SLU, Wadson Oliveira, que destaca os objetivos sociais da ação. “O foco é a inclusão e a geração de trabalho e renda”, completa.

O diferencial do projeto da Associação de Trabalhadores com Papel, Papelão e Materiais Recicláveis de Ibirité (Astrapi), vencedor do terceiro lugar, também é a busca da cidadania por meio do trabalho, inclusão social e acesso à informação, com oportunidade de capacitação dos catadores e familiares. “A renda mensal do catador duplicou, mas o maior aprendizado foi a prática do associativismo, ou seja, tudo é de todos”, conta a ecóloga e coordenadora de Projetos e Educação Ambiental da Secretaria de Meio Ambiente e Serviços Urbanos de Ibirité, Elaine de Freitas Silva.

Critérios

Na segunda edição do Prêmio Estadual – Sustentabilidade e Gestão Ambiental Municipal de Resíduos Sólidos Urbanos, um júri, constituído por cinco especialistas, selecionou os três melhores projetos, de acordo com os critérios de inovação e pioneirismo, envolvimento local e regional, viabilidade, além das dimensões ambientais, sociais, institucionais e econômicas impactadas pela ação.

“Nosso objetivo é divulgar iniciativas bem sucedidas que possam ser replicadas nos demais municípios, de maneira a formar um banco de boas práticas ambientais ligado à sustentabilidade e ao gerenciamento de resíduos sólidos urbanos em Minas Gerais”, afirma Luiza Helena Pinto, coordenadora técnica do Minas sem Lixões da FIP, que é a Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) responsável pelo desenvolvimento do programa em parceria com a Feam. Além dos troféus, os vencedores receberão as quantias de R$ 30 mil, R$ 15 mil e R$ 5 mil, de acordo com a classificação de primeiro, segundo e terceiro lugares, respectivamente. O prêmio é bienal e nova edição acontecerá em 2011.

Mnas sem lixões/EcoAgência

terça-feira, 9 de março de 2010

ISO 26000 - Responsabilidade Social - Processo de Gestão e sua Implementação nas Organizações

08 Março, 2010
Confirmado o avanço da ISO 26000 para o estágio FDIS
A futura norma ISO 26000 passou para uma outra importante etapa de desenvolvimento, com a confirmação de que o apoio dos membros da ISO e das organizações de ligação é suficientemente forte para que o documento evolua para o estágio Final Draft International Standard (FDIS). Este é o último estágio da construção de um padrão ISO antes de ser publicado como Norma Internacional.

Em meados de fevereiro, os membros da ISO votaram a favor de elevar a versão DIS - Draft International Standard - para a versão FDIS (vejam aqui a postagem que publiquei a respeito). No entanto, a fim de avaliar também o apoio de outras 42 organizações internacionais de ligação que participam do Grupo de Trabalho sobre Responsabilidade Social (ISO/WG SR), a liderança do WG analisou as opiniões e comentários dessas organizações antes de aprovar o avanço para a FDIS.

As organizações de ligação incluem associações representativas de empresas, ONGs da sociedade civil, dos consumidores e de trabalhadores. Elas não têm direito a voto, mas têm participado de forma ativa e direta da construção da ISO 26000.

Com a decisão do ISO/WG SR formalmente confirmada, o Grupo de Trabalho irá agora se concentrar nos 2.650 comentários recebidos durante o período de votação, a fim de aumentar ainda mais o nível de consenso e de qualidade do documento.

Com esse objetivo em mente, o ISO/WG SR irá estudar todos os comentários recebidos e preparar as discussões para a próxima reunião que acontecerá em Copenhague, na Dinamarca, em maio.

Após a reunião, um novo documento revisado será finalizado com base nos acordos que forem alcançados em Copenhague. Esse novo documento será distribuído como FDIS por um período de dois meses para votação. Se aprovada a versão FDIS, a ISO 26000 poderá ser finalmente publicada como Norma Internacional até o 4º trimestre deste ano.


fonte: QCP

domingo, 7 de março de 2010

Dom José fala sobre economia e ética

Ex-bispo da diocese de Uberlândia aborda temas polêmicos, como corrupção e mal uso do dízimo
Marcelo Calfat
Repórter

Jornal Correio de Uberlândia

Atualizada: 07/03/2010 - 15h33min


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Com o tema “Economia e Vida” e o lema “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”, a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010 traz à tona a discussão a respeito da economia e da relação com Deus. Segundo dom José Alberto Moura, ex-bispo da Diocese de Uberlândia e atual arcebispo da Arquidiocese de Montes Claros, a campanha traz o sentido bíblico do dinheiro para o ser humano. “A economia é uma coisa válida, necessária para o desenvolvimento humano, mas tem que ser usada com ética, sem corrupção ou desonestidade e sem acúmulo que provoca injustiças, deixando, às vezes, grandes parcelas sem o efeito do desenvolvimento econômico.”

Dom José Alberto é integrante da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o único representante da Igreja Católica no Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), órgão responsável pela escolha do tema da campanha deste ano. O Conselho é formado por seis igrejas: Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Cristã Reformada, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia e Igreja Presbiteriana Unida.

O bispo falou ao CORREIO de Uberlândia, por telefone, e abordou temas relacionados à Campanha da Fraternidade: economia, corrupção na política e uso indevido de arrecadações por meio do dízimo.

Qual a participação do senhor na escolha do tema da Campanha da Fraternidade 2010?
Eu ajudei a escolher, porque a CNBB resolveu abrir, a partir de 2000, na celebração dos dois milênios e jubileu do nascimento de Jesus, para que outras igrejas cristãs não católicas pudessem participar desta campanha. Então se fez a campanha ecumenicamente em 2000, 2005 e neste ano. Eu sou membro da diretoria do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), composta por seis igrejas, e sou o único representante da Igreja Católica. Foi o Conic, este ano, que escolheu, não a CNBB. Em geral, as Campanhas da Fraternidade têm temas escolhidos pelo menos dois anos antes. E esta escolha se dá por meio da CNBB, com promoção das comunidades que pedem o tema. O tema mais pedido é aquele escolhido. Também na CNBB eu tenho ajudado a escolher o tema, pois sou presidente da Comissão para o Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso da CNBB.

Qual o objetivo da campanha deste ano?
O tema é “Economia e vida” e o lema “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”, focalizando o sentido cristão e o sentido bíblico daquilo que é a economia. A economia é uma coisa válida, necessária para o desenvolvimento humano, mas tem que ser usada com ética, sem corrupção ou desonestidade e sem acúmulo, o que provoca injustiças, deixando, às vezes, grandes parcelas sem o efeito do desenvolvimento econômico. Então é preciso que se atente a este valor da economia, que não é a finalidade em si, mas é o instrumento que deve ser de valia para toda a população. E de modo especial para quem é deixado de lado. Então a campanha deste ano visa a ser educativa para formar uma consciência ética para o uso da economia pela sociedade, seja pelas pessoas em particular, seja por organismos particulares, seja pela política e todos os órgãos públicos.

Quais os resultados das campanhas anteriores?
As Campanhas da Fraternidade, em geral, têm sido muito educativas para formar uma mentalidade de altruísmo, de se pensar conforme o tema focalizado naquilo que é o bem das pessoas, o bem da sociedade, o bem do meio ambiente.

Desde quando existe a Campanha da Fraternidade? Onde ela foi criada e por quê?
Neste período da Quaresma, de preparação à Páscoa, se coloca historicamente, no cristianismo, o sentido da penitência, da oração e da caridade. Então, dom Helder Câmara, que era bispo auxiliar no Rio de Janeiro, há cerca de 47 anos, pediu para o povo fazer, durante a Quaresma, esta penitência. E aquilo que fosse o fruto da penitência, economicamente falando, deveria ser oferecido para ajudar os pobres. Isto se desenvolveu e até hoje a igreja faz a Campanha da Fraternidade. Mas a campanha se desenvolveu mais com o intuito de refletir sobre temáticas relacionadas ao interno da igreja e também ao social, para se criar uma mentalidade que olhe pela causa da comunidade e dos outros.

Na opinião do senhor, qual foi a Campanha da Fraternidade de maior repercussão e a mais inexpressiva?
Eu acredito que tenha chamado muito a atenção a campanha contra as drogas [2001]. A de menor repercussão talvez fosse a que tratou da habitação [1993].

Na avaliação do senhor, qual é o maior problema que o Brasil enfrenta hoje?
O problema que mais vejo hoje é o ético na convivência social. É preciso que tenhamos uma dimensão do sentido de tudo, da política, da economia, das prioridades humanas, como a educação, a assistência à saúde, a segurança e condição de trabalho para uma vida mais digna para todos.

De que modo o senhor analisa a questão da corrupção na política brasileira, como o caso recente do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda?
É preciso que a sociedade aprenda a lição para não ser corrupta e não eleger corruptos, avaliando bem e com espírito de discernimento para o voto. Precisamos crescer nesta dimensão para darmos o voto cidadão. Estes percalços, estes maus exemplos devem ser banidos da sociedade. Inclusive nós, unidos à Igreja Católica e a outros organismos, como a OAB, e o Ministério Público, o movimento contra a corrupção eleitoral, que já tem 1,5 milhão de assinaturas, para a confecção de uma nova lei contra a corrupção. Já existe uma lei sobre o assunto, a Lei nº 9.840/99, contra a corrupção, mas vamos criar uma nova para melhorar mais ainda. É a chamada “Lei da Ficha Limpa”, para que evitemos que corruptos sejam eleitos para cargos públicos. Isso vai melhorando, temos que acreditar no melhor posicionamento do povo, que vai aprendendo cada vez mais a votar com consciência e responsabilidade.

Falando da campanha, que trata da economia, o que países ricos ou em desenvolvimento, como o Brasil, devem fazer para ajudar países extremamente pobres, como o Haiti?
Essas uniões de países, chamados G-20, G-8 e outras, têm uma responsabilidade muito grande de formar uma nova consciência da relação entre os povos. As pessoas de consciência devem levar este espírito de solidariedade aos países. Inclusive já houve no passado o perdão de dívidas e isso pode ser feito ainda, mas é preciso que se lute, que se travem discussões e que nessas reuniões e fóruns internacionais se crie uma nova mentalidade. Isto ajuda a pressionar os países mais desenvolvidos para que colaborem com o bem de outras nações. E no caso do Haiti, já se falou e deve-se colocar em prática o perdão da dívida. Então é preciso que formemos uma consciência internacional de ajuda mútua.

Como o senhor analisa o tema da Campanha da Fraternidade deste ano em relação à Teologia da Prosperidade?
A Teologia da Prosperidade é uma deturpação do ensinamento bíblico a respeito da relação do ser humano com Deus. Há líderes religiosos que pregaram esta teologia no sentido de as pessoas darem o dízimo e exigirem de Deus qualquer coisa quanto a prosperidade. O dízimo tem outro sentido. É uma maneira de a pessoa agradecer a Deus por tudo que se recebe para ajudar a causa da comunidade, e não para o enriquecimento de alguns líderes religiosos. Claro que eles têm direito à sua manutenção, mas não é a focalização da teologia, assim chamada, da prosperidade, que faz com que as pessoas pensem só no lado econômico e na saúde física. É como disse Jesus: “não adianta a pessoa vir a ganhar o mundo inteiro se perder a vida eterna”. Então a economia, a saúde e tudo mais são instrumentos para serem usados para ajudar a pessoa e todos em um compromisso social. Mas querer buscar vantagens para si no sentido somente da prosperidade é desfocalizar o sentido bíblico da vida e do desenvolvimento humano.

O que o senhor espera com a campanha deste ano?
Espero que a campanha traga uma reflexão que ajude não só a igreja e religiões, mas contribua de forma ética com a sociedade. Para que a economia não privilegie apenas a elite e grandes banqueiros nem seja usada como finalidade por um país, deixando grande parte sem assistência à saúde, sem a devida educação, sem segurança, sem reforma agrária. É preciso que se focalize a economia para ajudar o ser humano, não para ajudar um país a se sentir desenvolvido, mas com grandes parcelas passando a necessidade.

Do que vai tratar a Campanha da Fraternidade 2011?
Será algo relacionado ao meio ambiente, já tratado no passado, mas com um novo enfoque das necessidades atuais em defesa deste setor.