EMPREENDEDORISMO SUSTENTÁVEL:
A EXPERIÊNCIA DO PROGRAMA INICIATIVA JOVEM
FERNANDO FILARDI
DOUTORANDO EM ADMINISTRAÇÃO
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO – FEA/USP
E-MAIL: filardi@fgvmail.br
EMPREENDEDORISMO SUSTENTÁVEL:
A EXPERIÊNCIA DO PROGRAMA INICIATIVA JOVEM
Resumo:
Este trabalho tem como finalidade apresentar a experiência de um programa de empreendedorismo e responsabilidade social implantado no Rio de Janeiro, mostrando o contexto das comunidades envolvidas, a metodologia utilizada, os principais objetivos e analisando os resultados alcançados. Na parte final, o estudo mostra as próximas etapas do Programa e apresenta algumas tendências a serem seguidas com vistas à consolidação e expansão. A partir destas análises, são apresentadas algumas conclusões sobre esta iniciativa, destacando o importante papel da iniciativa privada e sua participação ativa no desenvolvimento das comunidades que a cercam, tendo função fundamental para a consolidação deste processo de mudança. O presente trabalho busca contribuir para o entendimento desta nova realidade empresarial.
1. INTRODUÇÃO
1.1 - Contexto e Objetivo
Nos últimos 10 anos, principalmente após a abertura econômica iniciada nos anos 90, as empresas instaladas no Brasil estão tendo que enfrentar profundas mudanças em todos os ramos de negócio e tem dado enorme atenção a aspectos ligados à sua atividade fim. Investimento em marketing, melhoria contínua dos processos, aumento da produtividade, busca pela qualidade total, treinamento massivo de seus colaboradores, desenvolvimento de produtos e serviços adequados às necessidades de clientes cada vez mais exigentes, terceirização das atividades de suporte e foco na estratégia de longo prazo, são alguns dos exemplos.
Porém, recentemente, as empresas líderes nas suas áreas de atuação vêm descobrindo que não basta se adaptar a uma nova dinâmica do mercado e um nível maior de concorrência. Segundo Vassalo (2000), é preciso que as empresas entendam que neste novo ambiente, os interesses dos acionistas dividem espaço com as demandas da comunidade, dos clientes, funcionários e fornecedores.
Dentro deste contexto, e com o objetivo de incentivar o espírito empreendedor de jovens de comunidades, desenvolvendo as competências necessárias para a criação de seus próprios negócios, é que o Grupo Shell resolveu implantar no Brasil seu programa internacional de responsabilidade social. O Programa teve origem na Inglaterra, onde foi lançado em 1982 com o nome de Live Wire, e desde então vem sendo re¬plicado e desenvolvido também em outras partes do mundo, como Holanda, Austrália, África do Sul, Oman, Argentina, Chile, Hungria e outros países, sempre buscando adaptar a metodologia à realidade de cada país.
No Brasil, o programa ganhou o nome de Iniciativa Jovem, mantendo a mesma proposta original de desenvolver o espírito empreendedor dos jovens, entretanto, precisou sofrer alguns ajustes visto que a versão original que foi desenvolvida para a Inglaterra tinha como público-alvo os jovens com formação superior, e no Brasil o programa vem buscando dar oportunidade aos jovens com formação a partir do 1º grau.
O programa vem sendo desenvolvido com o objetivo de contribuir para uma economia mais dinâmica, gerando fontes de trabalho e renda para o jovem, sua família e sua comunidade, reforçando assim o compromisso da empresa com o desenvolvi¬mento sustentável. Para tanto, o programa vem atuando em três principais frentes: a) promoção da cultura empreendedora e do conceito de Empreendedor Sustentável; b) incentivo e apoio a jovens empreendedores, capacitando-os e estimulando sua visão social; c) incentivo e apoio à criação, ao desenvolvimento e à implementação de novos negócios nas regiões que abrigam o programa.
1.2 - A Comunidade
O território escolhido foi o bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, devido a diversos fatores, entre eles por abrigar 13 comunidades carentes no seu entorno, que são pacíficas e têm pouca ou nenhuma influência do crime organizado e do tráfico de drogas, portanto permitem a criação de programas sociais, e por contemplar ainda alguns bairros vizinhos, como: Glória, Catete, Laranjeiras, Largo do Machado, Lapa e Centro.
De acordo com Filardi (2002), a comunidade de Santa Teresa foi escolhida através de pesquisas que demonstraram um forte potencial de desenvolvimento, possibilidade de redução das diferenças sociais, grande diversidade de público-alvo, e carência de vários tipos de serviços.
Segundo pesquisa do IBGE (2001), Santa Teresa possui uma população de aproximadamente 41 mil pessoas formalmente instaladas e 14 mil moradores de comunidade carentes, que somados chegam a 55 mil pessoas divididas da seguinte maneira: 42 % na faixa etária de 15 a 39 anos, como pode ser visto nos quadros 1.1 e 1.2, sendo que a maior parte da população possui 1º grau completo e se situa na classe média com relação à faixa de renda.
Analisando os números do quadro 1.1, podemos notar um fenômeno ocorrendo no bairro, onde nos últimos 20 anos a população formal caiu de 51 mil habitantes para cerca de 41 mil, enquanto a população favelada aumentou em quase 50%, passando de 9.700 pessoas para 14.449. Este processo tem sido chamado de “favelização” e possui várias origens, entre elas o aumento da violência e a queda do poder aquisitivo dos moradores.
QUADRO 1.1 – POPULAÇÃO DE SANTA TERESA QUADRO 1.2 – FAIXAS ETÁRIAS (%)
Fonte: IBGE, 2001.
1.3 - Conhecendo o Território
O trabalho de implantação do programa foi iniciado com uma pesquisa realizada pela equipe do programa, nos meses de junho e julho de 2001, na qual foram identificadas as principais atividades desenvolvidas no bairro, baseadas em negócios voltados para cultura, entretenimento e lazer, entre eles os bares e restaurantes, como pode ser conferido no quadro 1.3. Esta constatação veio de encontro às vocações do bairro, que são a vida noturna e a boemia, que recebem muitos freqüentadores de fora do bairro, principalmente nos finais de semana.
Além disso, a pesquisa também identificou que a população de Santa Teresa é composta por muitos profissionais liberais, especialmente os artistas, músicos, escritores e intelectuais, que desenvolvem suas atividades profissionais e mantêm seus ateliês, estúdios e escritórios no bairro, a fim de aproveitar o silêncio e as paisagens que são um diferencial local. Completam o perfil de negócios instalados no bairro algumas escolas, hotéis, padarias, e outros estabelecimentos de famílias tradicionais, que segundo moradores não suprem adequadamente as demandas da comunidade, criando lacunas que deveriam ser preenchidas por novos negócios.
A metodologia utilizada para realizar a pesquisa procurou entender os hábitos de consumo da comunidade de Santa Teresa, especialmente no que diz respeito às rotinas de consumo, preferências e rituais, interação dos consumidores e da comunidade, com aspectos tangíveis e intangíveis do consumo e com os serviços oferecidos. Entre os produtos e serviços mais necessários para a comunidade de Santa Teresa e seu entorno, os entrevistados citaram: um banco com caixa eletrônico, uma padaria com delikatessen, uma lanchonete, um mercado, uma academia de ginástica, natação para crianças, alguma programação para a 3º idade, um centro cultural, uma lotérica, um posto dos correios, mais bancas de revistas, uma livraria com café, lojas de roupas alternativas, uma loja de animais domésticos (pet-shop) e uma agência de turismo receptivo com guias mirins.
QUADRO 1.3 – PRINCIPAIS ATIVIDADES
Fonte: Pesquisa realizada no bairro entre os meses de jun/jul de 2001. www.iniciativajovem.org.br
2. METODOLOGIA E DESCRIÇÃO DO PROGRAMA
A metodologia do programa foi estruturada durante o mês de julho de 2001, com base na pesquisa realizada, e começou a ser implantada em agosto, seguindo uma seqüência de seis etapas, que teriam como finalidade qualificar os jovens inscritos nas competências empreendedoras, que vão desde a avaliação de oportunidades e desenvolvimento de um plano de negócios, até a implementação e gestão de um novo empreendimento, conforme abaixo.
QUADRO 2.1 – ETAPAS DO PROGRAMA
Portal de Oficina Fábrica Selo Vitrine Mercado
Oportunidades de Idéias de Negócios Empreendedor de Negócios Aberto
2.1 - Portal de Oportunidades
Esta etapa foi criada com o objetivo de promover o programa Iniciativa Jovem e a cultura empreendedora, e foi o momento em que os jovens foram apresentados ao programa e incentivados a participar do desafio de empreender seu próprio negócio. Para tanto foi criada uma estratégia de divulgação através de palestras nas escolas da região onde o programa seria desenvolvido, as quais receberam o nome de Blitz.
Estas ações foram conduzidas pela equipe de coordenadores com o apoio visual de cartazes, biombos e panfletos. Em seguida, foram realizadas palestras que apresentaram o tema Empreendedorismo e os objetivos do programa, e foi iniciado o processo de inscrição através de três principais canais de comunicação: a) a sede do programa em Santa Teresa, b) as Blitz realizadas em locais estratégicos como escolas e universidades da região, e c) a página do programa na internet. No ano de 2001, foram realizadas cerca de 800 inscrições de jovens cujo perfil pode ser visto no quadro 2.2.
Após a realização das inscrições, os jovens passaram pela adequação aos critérios de seleção que foi bastante simples, tomando como base apenas três aspectos, a saber: a idade, o nível de renda familiar e o nível de instrução. Os jovens deveriam ter entre 18 e 30 anos, ser preferencialmente de baixa renda, ou seja, com renda familiar até 10 salários mínimos, e com escolaridade mínima da 4ª série do 1º grau e, preferencialmente, em desvantagem social. Do total de inscritos, 127 jovens foram aprovados nos critérios de seleção, e passaram a contar com a sede em Santa Teresa onde seriam realizadas as atividades do programa.
2.2 - Oficina de Idéias
Na segunda etapa os jovens foram estimulados a pensar em suas habilidades, reconhecer oportunidades na região, testando assim seu grau de empreendedorismo. Para auxiliá-los, o programa passou a disponibilizar voluntários, que iriam acompanhá-los nas demais fases do programa, recrutados na própria Shell e em outras empresas privadas de vários setores, com o objetivo de unir a criatividade e a ousadia das idéias dos jovens com a base sólida dos profissionais que conhecem a realidade do mercado.
Os objetivos do programa foram debatidos pelos participantes com a intenção de fazer com que os jovens entendessem o seu papel no processo de transformação da realidade em que vivem, contribuindo para o beneficiamento do bairro de Santa Teresa e seu entorno, assim como da comunidade, através da criação de negócios úteis que gerem empregos e melhorem a qualidade de vida da região.
QUADRO 2.2 – PERFIL DOS JOVENS INSCRITOS
Fonte: www.iniciativajovem.org.br. 2002. sm = salário mínimo
Os jovens levantaram algumas questões, sendo que a principal era quanto à apresentação de duas idéias de negócio semelhantes, ao que a equipe explicou que o mais relevante para o sucesso era o plano de negócios e este dificilmente seria igual ao de outro participante. Foi evidenciada a necessidade de o negócio estar relacionado com a preservação do meio ambiente, e foi colocado como fator importante o impacto social que os futuros negócios trariam, tendo como indicador primordial o número total de pessoas que seriam beneficiadas.
Além disso, fez parte desta etapa da metodologia uma explanação a respeito do conceito de empreendedor e as principais características do seu perfil para que consiga transformar idéias em negócios, entre elas: autoconfiança, dedicação, perseverança, criatividade, coragem e iniciativa.
Primeiramente, foi necessário convencer os jovens de que conhecer o assunto é fundamental, ou seja, ter uma boa noção do funcionamento de um negócio na área escolhida. Depois, saber identificar oportunidades de acordo com os habitantes da região para instalação do empreendimento, no caso de Santa Teresa e dos bairros vizinhos. Conhecer suas necessidades, deficiências e tendências, além de observar os hábitos e hobbies destas pessoas.
Alguns pontos foram listados e discutidos pelos grupos, lembrando as particularidades de Santa Teresa, como o bondinho, arquitetura, paisagens, boemia e o turismo, além de algumas deficiências como nos setores de saúde, segurança e transporte e falta de saneamento nas favelas que foram assuntos abordados.
Cerca de 70 jovens chegaram ao final da fase da Oficina de Idéias, que teve como propósito impulsionar a criação e o desenvolvimento de novas idéias de negócios para a comunidade de Santa Teresa e arredores.
2.3 - Fábrica de Negócios
Os jovens aprovados na Oficina de Idéias passaram para a terceira e mais complexa fase, na qual foram capacitados a desenvolver seus planos, baseados nas idéias de negócio que tiveram na fase anterior. Nesta fase, os jovens foram convidados a participar de dois jogos que serviram para simular a realidade empresarial, facilitando o entendimento de alguns termos complexos da linguagem do mundo dos negócios, como análise da viabilidade e vulnerabilidade.
Segundo Vicente (2001), o processo de aprendizado baseado em jogos é uma técnica cada vez mais difundida, principalmente no ambiente empresarial, e é chamada de edutainment, que significa aprender jogando, e vem gerando resultados bastante significativos.
O primeiro jogo foi o de Micro Crédito, jogado em grupos de até oito jovens que fizeram o papel de investidores que teriam como objetivo analisar novas idéias. Cada grupo recebeu um determinado número de idéias de negócios e teve que julgar se estas idéias eram viáveis e investir em algumas delas. Se as idéias vencessem todas as barreiras de entrada, virassem negócios e dessem lucro, os jovens ganhariam mais capital para investir em novas idéias, ao passo que se as idéias não vingassem eles perderiam o capital investido e poderiam até ir à falência. O objetivo deste jogo é fazer com que o jovem possa identificar os critérios e os fatores críticos de sucesso que garantem um bom plano de negócios, selecionar em que planos irá investir e vivenciar as pressões do mercado sobre os principais aspectos de um negócio. Os jovens se colocam do outro lado da mesa e entendem como funciona a cabeça de um investidor.
O segundo jogo foi de Plano de Negócios, que foi jogado em dois dias, onde os jovens tiveram o objetivo de construir um plano de negócio fictício, baseado num tema proposto, simulando a implementação do negócio, avaliando sua viabilidade financeira e reagindo às mudanças do mercado propostas pelo jogo. No caso proposto, os jovens deveriam montar um curso de línguas, e os voluntários tiveram o papel de diferentes agentes do mercado, como: bancos, agências de pesquisa, empresas da consultoria, representantes do conselho da comunidade, investidores, e outros a quem os jovens poderiam consultar em busca de informações para embasar seu plano e tomar decisões.
Passando pelos jogos, os jovens começaram a desenvolver seu plano de negócio real e nesta etapa o programa disponibilizou metodologia para 4 tipos de plano, conforme a seguir: Plano Empresarial voltado para quem quer abrir uma empresa privada, o Plano de Geração de Renda também voltado para quem quer montar empresas, porém com um perfil um pouco mais simples, o Plano de Carreira, voltado para quem quer planejar e desenvolver sua carreira, e o Plano Social, voltado para aqueles que queiram montar empresas sem fins lucrativos.
Cada jovem recebeu um manual com a metodologia para o desenvolvimento do plano, que foi dividida em fases que seguiram a seguinte seqüência: definição do negócio, visão e missão, plano de marketing, gestão operacional, gestão de pessoas, descrição do impacto social, análise financeira e a perspectiva pessoal que o plano traria para o jovem. Esses tópicos passaram a ser os critérios de aprovação do plano e do selo de empreendedorismo concedido pelo programa.
Este ponto foi crucial, pois permitiu à equipe identificar as etapas onde os jovens precisariam de maior apoio. Para isto, foi fundamental a participação dos voluntários e especialistas que fizeram um trabalho de pesquisa junto aos jovens e notaram que os principais problemas eram na parte de análise financeira, que provavelmente já vinha como carência da educação básica ou de um certo bloqueio com relação à matemática, e na expressão oral e escrita, que reduzia a capacidade de produzir o plano e levar a idéia para o papel.
Por conta disso, passaram a ser realizadas atividades complementares e seminários de suporte durante toda esta fase de construção dos planos de negócios, algumas voltadas para a superação de obstáculos, com esportes radicais, escaladas e trilhas, e outras voltadas para o desenvolvimento de habilidades empreendedoras, com palestras sobre comunicação e técnicas de apresentação, finanças, responsabilidade social, criatividade e marketing.
Esta foi sem dúvida a etapa mais importante, pois foi onde as idéias começaram a ser testadas e avaliadas e o sonho começou a virar realidade. Foi nesta fase também que os planos de negócio tiveram sua viabilidade avaliada, e 36 jovens conseguiram completar a elaboração de seus planos de negócio para apresentá-los na fase seguinte para avaliação e julgamento.
2.4 - Selo Empreendedor Sustentável e Prêmio Shell
Com os planos de negócio prontos, os jovens se prepararam para apresentá-los para uma equipe técnica de especialistas que os avaliaria de acordo com critérios estabelecidos pelo programa. Algumas das instituições parceiras participaram da banca julgadora, entre elas a Caixa Econômica Federal, o BNDES, o SEBRAE, a PUC, a ESPM, a FIRJAN, o CIEE, a DAI, a IBM, a UNESCO, o Portal do Voluntário e a Viva Santa. Após criteriosa avaliação, foram aprovados 13 planos de negócio que receberam o Selo Empreendedor Sustentável e se tornaram aptos a participar da Vitrine de Negócios, concorrendo ao Prêmio Shell Empreendedor Sustentável.
O programa premiou três jovens com os melhores planos, e os jovens que mais se destacaram em cada categoria. Os prêmios consistiram na entrega de um troféu e um montante em dinheiro a ser empregado obrigatoriamente na implementação do negócio. Os voluntários e orientadores também concorreram ao prêmio na categoria voluntário.
Para não criar um clima de vitória e derrota entre os jovens, os planos parcialmente aprovados e os reprovados receberam feedback da equipe do programa com os motivos da avaliação negativa, e indicando os pontos de melhoria. A metodologia do programa possibilitou aos jovens a oportunidade de reescrever seu plano de negócios e submetê-lo novamente ao programa, pois o princípio é que mesmo não tendo seu plano de negócios aprovado, o jovem possa levar uma experiência positiva e que isso possa elevar sua auto-estima e mudar sua vida para melhor.
2.5 -Vitrine de Negócios
Os jovens empreendedores cujas propostas foram selecionadas participaram de um evento chamado Vitrine de Negócios, no qual tiveram a oportunidade de apresentar, em forma de painel, seus planos de negócio para a comissão julgadora do programa. A Vitrine de Negócios, que foi realizada juntamente com um fórum sobre "O Jovem e o Mercado de Trabalho", apresentou os planos de negócios que receberam o Selo Empreendedor Sustentável, com o objetivo de atrair a atenção dos investidores e da mídia para os jovens e seus respectivos negócios.
Nesta fase foi realizada uma feira onde os plano de negócios foram apresentados aos convidados, empresas diretamente ligadas ao setor empresarial. Os futuros empreendimentos foram expostos visando possibilitar contatos com empresários, fornecedores, parceiros e futuros sócios.
A apresentação dos projetos foi marcada pela oportunidade de rever pontos fracos, obter opiniões de pessoas envolvidas com o empreendedorismo e pensar em novas estratégias. Além de fazer a avaliação, os examinadores deram sugestões de aprimoramento dos planos de negócio, questionaram valores e forneceram idéias para conquista de mercado e expansões futuras.
2.6 - Mercado Aberto
Mercado Aberto foi o nome dado à última etapa do programa Iniciativa Jovem, onde os jovens puderam contar com a possibilidade de conseguir crédito através das parcerias firmadas entre o programa e as instituições financeiras e de ocupar uma unidade de negócios na incubadora montada junto à sede em Santa Teresa.
Dos treze jovens aprovados, seis optaram por ficarem instalados na incubadora junto à sede do programa, e passaram a oferecer seus produtos e serviços à comunidade local, buscando potencializar a vocação regional de Santa Teresa. Enquanto implantam seus negócios, os jovens têm o acompanhamento e a orientação de profissionais voluntários, empresários, executivos com experiência em empreendedorismo, e da equipe do programa que ajuda a desenvolver o negócio em seus primeiros passos.
Nesta fase o programa busca dar prioridade aos jovens que demonstraram perfil de Empreendedor Sustentável, ou seja, que se desenvolvem e constroem um negócio pensando também no desenvolvi¬mento social, no bem-estar da comunidade e no meio ambiente em que está inserido. Ao invés de se ocupar apenas em não prejudicar a comunidade e a natureza, o Empreendedor Sustentável tem como objetivo colaborar com a comunidade e com a preservação do meio ambiente, ou seja, ser socialmente responsável.
3. Resultados alcançados no primeiro ano
A experiência desenvolvida no primeiro ano foi batizada de programa piloto, por que possibilitou um grande aprendizado e alcançou resultados extremamente positivos. Por exemplo, na etapa do Portal de Oportunidades, mais de 5.000 jovens foram informados sobre o programa, sendo realizadas 800 inscrições, um número bastante expressivo considerando que os canais de comunicação de massa, como televisão, jornais e rádio, não foram utilizados. Além disso, conseguiu recrutar também cerca de 40 voluntários. Todas as escolas públicas e particulares, bem como as principais faculdades da região foram trabalhadas e envolvidas, a mídia alternativa foi contatada, 12 importantes parcerias foram estabelecidas, surgiram diversas possibilidades de replicação do programa para o ano de 2003.
Na fase de Oficina de Idéias, dos 800 jovens inscritos, 127 jovens foram convocados, de acordo com os critérios de seleção, e os indicadores quanto à idade, nível de renda e instrução ficaram acima do esperado, sendo que mais de 80% dos jovens aprovados faziam parte da classe de renda que ganha até 10 salários mínimos, preservando o foco nos jovens em desvantagem social.
Na Fábrica de Negócios os jogos alcançaram 96% de aprovação, que segundo os jovens ajudaram muito na compreensão do papel do investi¬dor e da estrutura de um Plano de Negócios. Ao todo 13 jovens receberam o Selo Empreendedor Sus¬tentável, sendo dois planos de carreira, três Planos de Negócio Culturais ou Sociais e oito Planos de Negócio Empresariais, trazendo bom nível de diversidade quanto ao tipo de negócio.
Nas Atividades Complementares, foram oferecidos cursos do SEBRAE e orientação do CIEE, além da orientação de voluntários especialistas em finanças e marketing para Plano de Negócios, Plano de Carreira, técnicas de apresentação e atividade de superação.
Os resultados alcançados no primeiro ano podem ser considerados bastante satisfatórios, pois há uma estimativa de que cada negócio criado por um jovem na comunidade possa beneficiar direta ou indiretamente, em média, 10 pessoas, e, portanto no primeiro ano o número de beneficiários do programa aponta para algo em torno de 130 pessoas.
QUADRO 3.1 - PLANOS DE NEGÓCIO APROVADOS
Um Ateliê de Jóias
Uma Brinquedoteca
Um Restaurante Mexicano
Um Estúdio de Música
Uma Oficina de Artes
Uma produtora de Micro Eletrônica Uma Agência de Moda
Uma Agência de Turismo
Um Café Cultural
Uma Loja de Artesanato
Uma ONG de Eco Identidade
Um Plano de carreira: Cartunista e Desenhista
Um Plano de carreira: Músico e Compositor
4. Próximos Passos e Tendências
Até o final de 2003 o programa deverá ser ampliado para outros bairros e em 2004 começará a se expandir para outras cidades do país. Para os próximos anos, o programa deverá dobrar o número de inscrições no Rio de Janeiro, visando beneficiar um contingente cada vez maior. A previsão é de 300 jovens na Oficina de Idéias e 90 para a Fábrica de Negócios, apenas na sede de Santa Teresa, sem contar com o processo de replicação em outros bairros do Rio de Janeiro e em outras cidades e estados do Brasil.
O objetivo é avançar para um modelo replicável, sempre baseado no tripé Plano de Negócio – Crédito – Incubadora, no sentido de beneficiar o maior número possível de jovens que se encaixem no perfil definido pelo programa, buscando eliminar as principais dificuldades que limitam a criação de novos negócios, que são a falta de competência em técnicas de gestão, falta de capital e de espaço físico.
A Incubadora criada em Santa Teresa terá como objetivo a criação de trabalho e ocupação permanente para os jovens envolvidos com os negócios, que deverá prover 15 unidades de negócio para os jovens que tiverem seus Planos de Negócio aprovados segundo os critérios definidos pelo programa, que terão como principais benefícios o suporte técnico e administrativo, tendo à sua disposição alguns serviços e facilidades que serão gratuitos e outros que serão pagos.
O segundo objetivo é dar equilíbrio e sustentabilidade financeira ao programa Iniciativa Jovem, com o intuito de contribuir para o seu potencial de crescimento e expansão, tornando possível levar esta oportunidade a novos grupos de jovens todos os anos, a partir da cobrança de alugueis pelo espaço e de taxas pelos serviços utilizados na incubadora, tanto pelos jovens como pela comunidade local, que também terá acesso aos serviços de uso comum.
O sucesso da incubadora do programa Iniciativa Jovem será medido pela quantidade de pessoas que ela irá beneficiar direta e indiretamente, e pela quantidade de negócios efetivamente bem sucedidos. Este será sem dúvida o maior desafio que o programa irá enfrentar nos próximos anos.
5. Conclusões
5.1 Aspectos Sociais
O Instituto Ethos (2000) define responsabilidade social como um conjunto de valores baseados em princípios éticos que envolvem inicialmente os produtos e serviços, evolui para a abordagem dos processos, até chegar ao tratamento abrangente das relações compreendidas na atividade empresarial, com os empregados, os fornecedores, os consumidores, a comunidade, a sociedade e o meio ambiente. A busca da excelência pelas empresas passa a ter como objetivo, além da qualidade nas relações e da sustentabilidade econômica, uma preocupação social e ambiental.
A implantação desta idéia no programa foi conseguida principalmente através do reconhecimento, apoio e estimulo ao trabalho voluntário dos empregados, o que tem sido considera¬do um fator de motivação e satisfação das pessoas em seu ambiente interno. A Shell vem incentivando essas atividades, liberando seus empregados em parte de seu horário de expediente para ajudar organizações da comunidade ou dando incentivos aos empregados para que se envolvam em projetos de caráter social como o Iniciativa Jovem.
O respeito aos costumes e culturas da comunidade local, além do empenho na educação e na disseminação de valores sociais devem fazer parte de qualquer política de envolvimento comunitário. Neste ponto o programa vem se preocupando em desenvolver nos jovens as características do empreendedorismo sustentável, buscando mostrar que todo e qualquer negócio a ser montado deve ter como foco o gerenciamento do impacto da atividade produtiva na comunidade.
Uma das inovações mais marcantes é a visão territorial social do pro¬grama, que busca o desenvolvimento local sustentável através da formação de empreendedores e da implantação de incubadoras auto-sustentáveis nas áreas a serem desenvolvidas. A possibilidade de criação e desenvolvimento de várias categorias de plano, também é outra inovação importante, pois além de não restringir a criatividade dos jovens, quebra o padrão de que planos de negócios devem ser sempre empresariais e ter fins lucrativos.
A conclusão final é que, de acordo com os principais indicadores sociais formulados pelo Instituto Ethos, o programa vem atingindo resultados significativos e tem grande potencial de contribuição para a transformação da realidade social das comunidades através do empreendedorismo sustentável.
5.2 Aspectos do Empreendedorismo
Em pesquisa realizada anualmente, englobando 21 países, o instituto Global Entrepreneurship Monitor (1999) em parceria com a London Business School da Inglaterra, o Babson College de Boston e o Kauffman Center for Entrepreneurial Leadership dos EUA, constatou que o Brasil é o país que tem o maior número de pessoas com espírito empreendedor no mundo.
Já no Global Entrepreneurship Monitor (2000), o Brasil aparece como o país que possui a melhor relação entre o número de habitantes adultos que começam um novo negócio e o total da sua população: 4 em cada 8 adultos. Nos Estados Unidos esta relação é de 1 em cada 10; na Austrália, 1 em cada 12; na Alemanha, 1 em cada 25; no Reino Unido, 1 em cada 33; na Finlândia e na Suécia, 1 em cada 50; e na Irlanda e no Japão, 1 em cada 100. Isso mostra que, apesar de ocorrer de maneira menos organizada do que em países mais desenvolvidos, o empreendedorismo no Brasil vem ganhando espaço na economia.
Entretanto, o Cadastro Central de Empresas, divulgado pelo IBGE (2002), mostra que entre 1999 e 2000, para cada dez empresas que abriram no país, 6,5 fecharam. Em números absolutos: foram 710.258 nasci¬mentos para 457.990 mortes de empresas. Conforme pesquisa do Sebrae (1999), realizada em alguns estados do Brasil, a taxa de mortalidade empresarial varia de cerca de 30 a 61% no primeiro ano de existência da empresa, de 40 a 68% no segundo ano, e de 55 a 73% no terceiro ano do empreendimento.
O fato é que existe uma vocação muito forte para o empreendedorismo no Brasil, mas ao que parece ainda não se sabe muito bem como reduzir ou evitar que uma enorme quantidade de empresas feche as portas de maneira precoce.
A capacitação de habilidades empreendedoras nos jovens através de uma metodologia que permita uma maior compreensão dos conteúdos abordados na criação e implementação de um novo negócio, além de funcionar como um elemento integrador frente à diversidade do público alvo, reduz sobremaneira a mortalidade de novos empreendimentos.
O modelo proposto pelo programa Iniciativa Jovem, baseado num tripé Plano de Negócio – Crédito – Incubadora, ganha força e vem se provando como alternativa eficaz no combate à mortalidade precoce de micro e pequenas empresas. Segundo estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – FIESP (2002), apenas 15% dos empreendimentos que participam do processo de incubação são extintos atualmente. Há cinco anos este número era de 50%.
Num país que luta para reduzir as enormes discrepâncias sociais, o empreendedorismo e iniciativas como esta mostram que, através da criatividade e do engajamento de todos os agentes da sociedade, inclusive das empresas privadas, ainda existem caminhos a serem explorados, os resultados aparecem e que a iniciativa privada deve ter papel destacado na busca da redução da exclusão social.
Entretanto, é necessário que as empresas entendam que este não é mais um modelo de gestão baseado na moda empresarial, como foram a reengenharia, benchmarking ou downsizing. É preciso superar a tentação do assistencialismo fácil, buscando criar estruturas e projetos de longo prazo, envolver empregados, voluntários, parceiros, clientes, e todas as organizações que possam e queiram se engajar, pois somente assim uma empresa poderá se tornar realmente cidadã, gerando benefícios reais para a comunidade.
6. Referências
DOLABELA, Fernando. O segredo de Luísa. São Paulo, Editora Cultura, 1999.
DORNELAS, José Carlos Assis. Empreendedorismo: transformando idéias em negócios. Rio de Janeiro, Editora Campus, 2001.
FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DE SÃO PAULO – FIESP, Estudos sobre mortalidade precoce de micro e pequenas empresas. Ed. Estado de São Paulo, São Paulo, 2002.
FILARDI, Fernando. Jovens criam empresas em Santa Teresa. Gazeta Mercantil, Caderno Rio de Janeiro e Espírito Santo, pág. 8, 1º/Março/2002.
GLOBAL ENTERPRENEURSHIP MONITOR. Executive Report, 1999.
GLOBAL ENTERPRENEURSHIP MONITOR. Executive Report, 2000.
HORAN, Jim. One Page Business Plan: start vision and build a company. Rebeca Shaw Ed., California, USA, 1998.
IBGE. ibge.gov.br, 2001.
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INICIATIVAJOVEM..http://www.iniciativajovem.org.Br. 26.04.2002.
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REVISTA DO INICIATIVA JOVEM. Edição nº 0 – Março, 2002.
SEBRAE, Fatores condicionantes e taxa de mortalidade de empresas. Brasília, Sebrae, out/1999.
VASSALO, Cláudia. Um novo modelo de negócios. Revista Exame. Edição nº 728. Guia da Boa Cidadania Corporativa, pág. 8-11, São Paulo, dez/2000.
VICENTE, Paulo. Jogos de Empresas. São Paulo. Makron Books, 2001.