Sustentabilidade e desenvolvimento sustentável




O princípio de sustentabililidade planetária envolve a eclipse social para o meio ambiente. Eclipse social significa esconder o desenvolvimento sustentável. Cada um deve fazer a sua parte.



domingo, 13 de novembro de 2011

A Guerra do Fogo

Jean-Jacques Annaud


Há 80.000 anos, a sobrevivência do homem, pelas vastas regiões inexploradas, dependia da posse do fogo. Para os nossos ancestrais, o fogo era objeto de grande mistério, visto ninguém ter o domínio da sua criação. Tinha de ser roubado à natureza e mantido aceso, protegido do vento e da chuva e afastado das tribos inimigas. Era um símbolo de poder e um meio de sobrevivência. A tribo que possuísse o fogo, possuía a vida.
O homem inicia então uma busca para encontrar e produzir o elemento mais importante e indispensável à sobrevivência, o fogo. Sua descoberta é apresentada como pretexto a uma viagem que levará ao encontro do conhecimento e da própria sensibilidade humana.
Como tecnologia de transformação da matéria, o fogo é muito provavelmente o primeiro recurso incorporado ao cotidiano da nossa espécie, servindo de meio de defesa, aquecimento, cozimento, iluminação etc. Como mecanismo de defesa, o fogo pode ter contribuído para fixar o homem no chão, que poderia assim deixar as árvores como refúgio noturno ou quando da eminência de algum ataque. O fogo serve também como fonte de aquecimento e iluminação de ambientes, tornando-os mais agradáveis nos períodos de inverno e permitindo o desenvolvimento de hábitos noturnos dependentes da visão. Mas, a capacidade de cozer alimentos talvez tenha sido a experiência de controle refinada de processos que associou-se mais decisivamente a outros processos sócio-culturais de alto valor para a organização da humanidade.
A diversidade de relações estabelecidas pelos coletivos com essa tecnologia em particular é um bom exemplo dos antagonismos inerentes aos processos desencadeados pela tentativa da humanidade de dominar os fenômenos naturais e subjugá-los aos padrões sócio-culturais construídos. O desenvolvimento de técnicas para acessar e controlar fenômenos é tradicionalmente reconhecido como fator de progresso científico e de acúmulo de conhecimento e guarda estreitas aproximações com as normas sociais. Deve-se observar a estreita correlação entre os desenvolvimentos de técnicas, e nesse sentido do conhecimento científico, e as mudanças de comportamento humano. Nessa medida, a tecnologia do fogo, e de alguma maneira o conhecimento científico a ela atrelado, deve ser reconhecida como um fenômeno sócio-culturalmente condicionado, o que impede a desconsideração de fatores históricos e culturais quando se deseja aprofundar o seu entendimento pelo sujeito ou grupo social.
Baseado na obra do escritor J. H. Rosny Sr., o roteirista Gérard Brach se juntou a Jean-Jacques Annaud para levar às telas este pequeno épico que tem como tema principal a descoberta do fogo. Toda a história é movimentada somente pelas ações dos personagens e pela linguagem corporal dos mesmos.
Há 80 mil anos atrás, uma tribo de ancestrais humanos que depende do fogo para proteção e aquecimento acidentalmente tem sua chama extinta. Assim, 3 membros da tribo se separam do restante do grupo e partem em busca de uma nova chama. No caminho eles passam pelos mais variados problemas e parecem ganhar mais consciência e razão a cada novo obstáculo superado. Há inclusive o envolvimento de um deles com uma fêmea de outro bando.
Os atores que interpretam os primatas dão shows de atuações. A linguagem corporal das tribos, desenvolvida por Desmond Morris, é a única ferramenta da qual os atores dispõem para se expressarem. O resultado é altamente verossímil e digno de aplausos.
“A Guerra do Fogo” é quase um documentário de antropologia. Apesar de haver uma história concreta e bem-estruturada, Annaud também abre espaço para o estudo do comportamento dos homens pré-históricos. São notáveis, por exemplo, as diferenças entre as 2 tribos principais. Uma parece ter uma linguagem oral mais desenvolvida, com sons mais articulados, além de dominar a criação do fogo. A outra é marcada por seus grunhidos e gritos e pela ignorância com relação às técnicas de criação do fogo.
São notáveis também a violência e a hostilidade existente entre uma tribo e seus inimigos e a curiosidade com relação ao sexo, que é mais acentuada na tribo mais desenvolvida. Não se sinta estranho se você perceber que, mesmo após 80 mil anos, pouca coisa mudou.
O filme também acerta ao mostrar os membros da tribo menos complexa adquirindo conhecimento e razão com o passar do tempo. No final, inclusive, há até uma cena que sugere a “descoberta do amor” entre um macho e uma fêmea. Além de tudo isso, o filme de Annaud também permite várias analogias com o mundo atual.
Sem dúvidas, “A Guerra do Fogo” é um filme original e peculiar, que merece ser visto por aqueles que desejarem ver algo realmente diferente de tudo o que já foi feito no cinema.


Referências Bibliográficas


[1] Sítio “Cinema em Casa”, Seção “Críticas: A Voz do Cinéfilo”, comentários de Diego Sapia Maia (http://www.cinema.art.br)

[2] Sítio “DVD Mania”, Seção “Filmes & Filmes - Análises” (http://www.dvdmania.co.pt/Analisesf/ guerredufeu.html)

[3] Sítio “Laboratório de Pesquisa em Ensino de Química e Telemática Educacional” da Universidade de São Paulo (http://pauling.fe.usp.br/artigos/combustao)

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Em busca da sustentabilidade planetária

Coletores de material reciclável: trabalho valorizado com o auxílio da universidade Aaulo.
Projetos incentivam ações que promovam equilíbrio nas relações sociais, econômicas e ambientais


A preocupação com o meio ambiente não é a única quando o assunto é sustentabilidade. Pelo contrário. É cada vez maior a conscientização de que a construção de um mundo sustentável passa, necessariamente, pela construção de uma sociedade mais equilibrada. A partir dessa consciência estão surgindo iniciativas que modificam realidades e influenciam novos comportamentos.

Um exemplo disso surgiu em 1998, na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), com a criação de um projeto de extensão denominado Incubadora Regional de Cooperativas Populares (Incoop). Ao longo dos últimos anos, a Incubadora ajudou a fomentar empreendimentos, em vários segmentos, com preocupações éticas, sociais, econômicas e ambientais.

O trabalho começou em dois bairros da periferia de São Carlos - o Jardim Cruzeiro do Sul e o Monte Carlo -, selecionados por apresentarem altos índices de pobreza. Depois ele se estendeu para outras cidades paulistas e, em 2007, voltou a se concentrar no ponto de origem, visando promover o desenvolvimento da região, através da organização de arranjos produtivos locais. Os resultados já podem ser observados.

Na cadeia de serviços, por exemplo, a Incoop ajudou a formar a Cooperlimp, cooperativa de limpeza que começou com oito e hoje conta com 250 associados, que prestam serviços para empresas e instituições públicas, inclusive participando e vencendo licitações. Agora, a Incubadora tenta articular empreendimentos afins, como os grupos da cadeia de produção de sabão - feito a partir do óleo de cozinha - e demais produtos de limpeza para fornecimento de matéria-prima para a Cooperlimp. Por sua vez, esses grupos deverão se associar aos da cadeia da reciclagem, que devem fornecer embalagens para parte dos produtos fabricados (como detergente e amaciante). Desta forma, está sendo montada uma rede que, na visão dos membros da Incoop, pode ser considerada menos vulnerável às oscilações do sistema econômico.

Professora Maria Zanin, da Incoop: economia solidária como base para a sustentabilidade Aaulo.
"Nossa ideia é promover essa diversidade de empreendimentos pensando no desenvolvimento sustentável desta região. Quando a gente fala em sustentabilidade, existe o aspecto econômico, o aspecto social, o ecológico.... E, para mim, não existe sustentabilidade se não for por meio da economia solidária", afirma a professora Maria Zanin, uma das responsáveis pela criação da Incubadora.

Sustentabilidade e inclusão

Com base nos princípios de Reduzir, Reutilizar e Reciclar, o 3R - Núcleo de Reciclagem de Resíduos da UFSCar - foi criado em 1996, a partir da necessidade de professores dos departamentos de Engenharia Civil e de Materiais de trabalhar com pesquisas envolvendo resíduos e educação ambiental.

Durante muito tempo, o foco esteve na coleta seletiva, na reciclagem de plástico e no desenvolvimento de tecnologias para essa finalidade. Boa parte desse conhecimento acabou sendo repassada, através da Incoop, a coletores e cooperativas de material reciclável, visando agregar valor a esse tipo de trabalho.

Nos últimos anos, outros tipos de materiais passaram a ser considerados, entre eles o papel. Atualmente, quem desenvolve a atividade nesse setor é um grupo de portadores de transtornos mentais severos atendidos pelo Centro de Apoio Psicossocial da Prefeitura Municipal de São Carlos. Desse modo, ao mesmo tempo em que atua na questão ambiental, o Núcleo propicia oportunidade de inclusão social dessas pessoas.

A professora Carmem Lúcia Alves Filizola, do Departamento de Enfermagem da UFSCar, relata os benefícios que essa atividade tem representado, segundo pacientes e suas famílias. "É um espaço importante para a promoção da saúde mental, tendo em vista que proporciona aprendizado, novas relações de amizade, de interação com outros atores sociais e de trocas afetivas, além do retorno financeiro, que ainda é pequeno", revela. "Inseridas no trabalho essas pessoas passam a ser reconhecidas como seres produtivos, portanto capazes", completa.

Produção consciente

Considerando as questões ambientais e econômicas relacionadas a impactos provocados pela crescente geração de resíduos plásticos e pelo preocupante panorama de degradação e redução de recursos naturais, um grupo de pesquisa coordenado pela professora Sati Manrich, do Departamento de Engenharia de Materiais da UFSCar, realizou estudos e desenvolveu diversos produtos de resíduos plásticos reciclados, principalmente aqueles destinados a aplicações em impressão e escrita.

A ideia do papel sintético ecológico foi concebida em meados de 1995 e os trabalhos de caracterização dos resíduos plásticos foram iniciados em março do ano seguinte. O resultado é um material que pode ser utilizado tanto para escrita e impressão quanto na produção de uma infinidade de outros produtos, como banners, etiquetas e rótulos - com a vantagem de serem bens mais duráveis e de maior valor agregado -, além de livros, apostilas escolares e até documentos pessoais e cédulas de moedas.

O pedido de patente já foi feito e o interesse despertado foi grande, mas o material ainda não é produzido em grande escala. No entanto, Sati aposta nas vantagens que a descoberta pode trazer. "O meio ambiente ganharia muito com isso, por reduzir o volume de lixo plástico depositado e perdido nos aterros e lixões, assim como os consequentes impactos ambientais já conhecidos, e por reduzir o uso de energia e de recursos naturais (como o petróleo), substituindo matéria-prima virgem por matéria-prima recuperada com processos que consomem bem menos energia do que os processos primários de fabricação de plásticos virgens. O uso de plásticos reciclados possibilita economizar até 50% de energia em comparação com plásticos primários e, para cada tonelada de papel sintético produzido, até 850 quilos de lixo plástico poderiam deixar de ser descartados", garante a pesquisadora.

Consumo responsável

Outra ação em prol de uma sociedade sustentável nasceu da criação do ConsumoSol, Articulação Ética e Solidária Para um Consumo Responsável. Seu objetivo é articular produtores e consumidores para o que a organização chama de "consumo solidário". Na prática, trata-se do consumo comprometido com o desenvolvimento local, que valorize os produtos da região, vindos de empreendimentos que tenham preocupação com o meio ambiente, que não explorem a mão-de-obra, pratiquem preços justos etc.

A professora Ana Lúcia Cortegoso, do Departamento de Psicologia da UFSCar, explica que o grupo atua desde 2004 visando garantir a sustentação da economia solidária. Diversas atividades de divulgação, organização de eventos e oficinas de treinamento são realizadas pelos articuladores a fim de atingir seus objetivos, mas os desafios ainda são grandes.

"Sensibilizar para a questão, facilitar condutas desejáveis de consumidores, produtores e distribuidores, promover mudanças sistêmicas de práticas culturais... Tudo isso diante de uma lógica que faz exatamente o contrário: estimula o consumismo, fomenta produtos de baixa duração, estabelece padrões de 'marcas' socialmente valorizadas e desvaloriza a produção e o saber popular", aponta Ana Lúcia. "São desafios importantes, também, questões relacionadas a compras públicas, legislação compatível com as características da economia solidária etc.", completa.

Para a professora, o consumo solidário é uma dimensão essencial para uma sociedade sustentável e pode servir como eixo organizador de muitas outras dimensões. "Os seres vivos consomem para viver, e isto não há como mudar, mas apenas um consumo que parta do reconhecimento de que vivemos em um mundo com recursos limitados e de que a igualdade de oportunidades a uma vida digna é ingrediente fundamental para que seja possível alcançar um nível de equilíbrio entre necessidades e recursos pode servir à continuidade da vida", afirma.


http://www.clickciencia.ufscar.br/portal/edicao21/materia3_detalhe.php