Postado por Sulenir às 2/21/2010 09:41:00 AM
Sulenir Cândida da Silva Nascimento
“Não basta que exista educação para que um povo tenha seu destino garantido. É preciso determinar o teor educacional para que saiba em que direção está caminhando ou deixando de caminhar uma nação”
(Arduini, 1975)
Resumo: Objetivou-se com este estudo analisar como a escola está contribuindo para a formação de alunos socialmente responsáveis, promovendo a reflexão, o reconhecimento das diferenças, a participação dos sujeitos da educação no planejamento da escola e suas concepções sobre responsabilidade social, considerando o compromisso político e pedagógico da escola campo da pesquisa. Utilizou-se a pesquisa bibliográfica e de campo, através de uma abordagem quantitativa e qualitativa envolvendo profissionais da educação e membros da comunidade. Verifica-se que a escola, bem como a comunidade externa, consideram importantes à prática da responsabilidade social no âmbito educacional, à medida que pode proporcionar mudanças comportamentais e ambientais, já que faz com que todos se percebam como agentes de transformação. No entanto, constatou-se que, apesar da escola trabalhar através de uma pedagogia de projetos, os mesmos não estão atrelados a um planejamento macro, o que acaba por não dimensionar as metas que exatamente se deveria alcançar.
Palavras-chave: Responsabilidade Social, Planejamento Estratégico, Participação, Gestão
Introdução
A discussão a respeito da gestão educacional e os novos significados que estão sendo propostos aos gestores educacionais pode ser orientado pela reflexão sobre o significado social da escola, principalmente, quando estamos pensando e realizando o processo educativo da perspectiva dos sistemas educacionais, onde são gestadas políticas, normas e diretrizes para a sua operacionalização.
Segundo Ferreira (2000), a gestão da escola deve garantir a realização dos princípios básicos da educação, como, o compromisso da sabedoria de viver junto, respeitando as diferenças e o compromisso com o mundo mais justo para todos os que nele habitam, independentemente de raça, cor, credo ou opção de vida.
Entende-se deste modo que, o ato de gerir a educação e a escola precisa ultrapassar as formas estritamente racionais, técnicas e mecânicas, mantendo-se, porém alguns mecanismos a fim de garantir o bom funcionamento da instituição e a qualidade do processo de formação humana – expresso no projeto pedagógico – que possibilitará ao educando crescer e torna-se mais humano.
A escola deve repensar qual perfil de aluno se deseja formar, bem como qual o seu papel e qual o papel do educador no desenvolvimento de práticas, atitudes e exemplos aplicados que tenham como finalidade promover a reflexão e a formação de alunos autônomos, críticos e reflexivos. Diante disso, pergunta-se: como a escola está contribuindo para a formação de alunos socialmente responsáveis e como o planejamento escolar pode ser elaborado com fins direcionados a ações de responsabilidade social?
As questões norteadoras que subsidiaram este estudo são: Como o professor percebe e quais são suas concepções sobre a prática da responsabilidade social na escola pública?, De que forma o gestor escolar contribui para que sejam aplicadas ações voltadas à prática da responsabilidade social? Como a escola compreende a importância de ações voltada à responsabilidade social e de que forma, é possível, implementar uma gestão estratégica que possibilite um planejamento de acordo com as reais necessidades e anseios da comunidade escolar como um todo?
Este estudo teve como principal objetivo analisar como a escola está contribuindo para a formação de alunos socialmente responsáveis, promovendo a reflexão, o reconhecimento das diferenças, a participação dos sujeitos da educação no planejamento da escola e suas concepções sobre responsabilidade social.
Diante disso, não se deve confundir, ações de responsabilidade social com práticas filantrópicas. Segundo Melo Neto (2001, p. 27), “a filantropia é uma simples doação, fruto da maior sensibilidade e consciência social do indivíduo”, ou seja, a ação filantrópica corresponde a uma ação social fora da organização, tendo como beneficiário a comunidade, porém suas ações não seguem uma continuidade, uma finalidade, sendo executadas de forma esporádica e sem a necessidade de qualquer planejamento ou organização, enquanto que a prática de responsabilidade social tem como objetivo promover o desenvolvimento do cidadão e estimular a cidadania coletiva e individual, estendendo suas ações a todos que participam da vida em sociedade.
A Responsabilidade Social busca a sustentabilidade e a auto-sustentabilidade de grandes e pequenas comunidades.(...) A responsabilidade social é uma ‘ação transformadora”. Uma nova forma de inserção social e uma intervenção direta em busca da solução de problemas sociais. (MELO NETO, 2001, p. 27)
Assim, podemos considerar que responsabilidade social é uma ação coletiva, mobilizadora, à medida que valoriza a cidadania, promove a inclusão social e restaura a civilidade. Em outras palavras, pode-se aplicar a responsabilidade social a educação quando a forma de gerir se dá através de uma cão transparente, de forma crítica e sustentável com toda a comunidade escolar.
Através de ações de responsabilidade social, como: preservação de recursos ambientais e culturais para futuras gerações, respeito a diversidade e promoção da redução das desigualdades sociais, a escola estimula todos os públicos com que se relaciona ao exercício pleno da cidadania, contribuindo através de uma gestão participativa e eficaz desenvolver capacidades que se permitam intervir na sociedade para transformá-la.
A participação e a democratização num sistema público de ensino é a forma mais prática de formação para a cidadania. A educação para a cidadania dá-se na participação no processo de tomada de decisões. [...] Quanto mais pessoas se envolverem com os assuntos da escola, maior será a possibilidade de fortalecimento do projeto autônomo de cada escola. (GADOTTI, 2000, p.49-52)
Neste sentido, fala-se de planejamento estratégico para as escolas, como um elemento onde todos possam contribuir com suas idéias a fim de encontrar caminhos e alternativas positivas para a construção de uma sociedade mais responsável. Nas palavras de Veiga (1995):
O projeto busca um rumo, uma direção. É uma ação intencional, com um sentido explicito, com um compromisso definido coletivamente. (...) Propicia a vivência democrática necessária para a participação de todos os membros da comunidade escolar e o exercício da cidadania.(...) Preocupa-se em instaurar uma forma de organização do trabalho pedagógico que supere os conflitos, buscando eliminar as relações competitivas, corporativas e autoritárias, rompendo com a rotina do mando impessoal e racionalizado da burocracia que permeia as relações no interior da escola, diminuindo os efeitos fragmentários da divisão do trabalho que reforça as diferenças e hierarquiza os poderes de decisão. (VEIGA, 1995, P. 13-14)
Portanto, não dá para pensar em projeto sem pensar em planejamento e no construcionismo social, o que conseqüentemente, resultaria no fracasso das metas estabelecidas pela escola, uma vez que sem planejamento não se determina que objetivos se desejam alcançar, quais propostas se pretendem executar, entre outros elementos primordiais para o melhor andamento das atividades educativas e práticas socialmente responsáveis.
É imprescindível à formulação de políticas, de diretrizes e de metas que tenham como finalidade o bom andamento do planejamento, pois sem isso, torna-se impossível ao longo do processo, projetar, acompanhar e avaliar o andamento das ações, bem como traçar novos rumos quando necessário.
As metodologias de planejamento estratégico propõe identificação de ameaças e oportunidades, tendo em vista a interação da instituição com seu ambiente externo, bem como evidenciar os pontos fortes e fracos da organização, por meio de análise interna, para que, com isto, sejam definidas as diretrizes e estratégias que, no caso, leve as organizações escolares a darem respostas efetivas as demandas, que emergem do ambiente em que se inserem. (MOSIMANN apud SAMISTRARO E RIBEIRO, 2006, p. 71-72)
Normalmente, a elaboração do planejamento escolar é feita de forma muito sucinta, não há uma análise preliminar do ambiente – tanto interno como externo – onde se possibilite definir estratégias de atuação que viabilizem uma melhoria da qualidade do ensino, bem como a formulação de metas possíveis de serem alcançadas.
Desta forma, para um melhor andamento das ações, faz-se necessário à elaboração de planos de ação, que determinem o que deve ser feito, como e quando deverá ser feito, estabelecendo prazos para a execução que irão permitir esse acompanhamento e avaliação, dinamizando assim todo o processo. “Os planos de ação prevêem atividades programadas, contendo o detalhamento de como deverá ser realizada e concretizada a estratégia para se atingir o objetivo”. (COLOMBO, 2004, p. 33)
De acordo com Samistraro e Ribeiro (2006), o ponto de partida para uma mudança sólida, é o “querer” do corpo diretivo, que, por sua vez, promoverá o engajamento de todos os integrantes da instituição (corpo docente e funcionários) que, em última análise, são as pessoas que irão garantir o sucesso da implementação de novas propostas e, com isto, a permanência da instituição no sistema e o devido cumprimento de seu papel na sociedade.
Para isso, a escola deve planejar-se estrategicamente, tendo claro o porquê e para quê a instituição existe, de que forma ela faz e como faz. No entanto, anterior a isto, é preciso que se faça uma leitura do cenário em que a escola está inserida e a tomada de decisões, o que resultará em um conjunto de planos altamente flexíveis, que nortearão todas as ações administrativas a longo prazo.
O planejamento estratégico envolve uma reflexão ampla e aprofundada sobre a organização, iniciando pela definição da missão, da visão e de estratégias organizacionais, e inclui a definição de objetivos, finalidades, metas e diretrizes organizacionais. (...) A falta de planejamento estratégico como instrumento de gestão é responsável em parte pela manutenção de baixos resultados de aprendizagem. Portanto, um enfoque adequado sobre o planejamento é essencial. (SAMISTRARO E RIBEIRO, 2006, p. 70)
Mais que encontrar respostas, é preciso entender que, a educação necessita estar pautada em objetivos claros, que tenham como finalidade a formação de alunos críticos e reflexivos, capazes de articular ações para o bem comum. Daí a importância, da escola, incluir em seu planejamento práticas voltada a responsabilidade social, possibilitando que todos tenham conhecimento da dimensão que tais ações podem influenciar na sociedade.
A responsabilidade social busca estimular o desenvolvimento do cidadão e fomentar a cidadania individual e coletiva. [...] As ações de responsabilidade social são extensivas a todos que participam da vida em sociedade – indivíduos, governo, empresas, grupos sociais, movimentos sociais, igrejas, partidos políticos e outras instituições. (MELO NETO, 2001, p. 27)
Percebe-se com isso que, a atuação perante a realidade da escola pública deve ser de análise e de conscientização, não somente da equipe docente, mas de toda a comunidade, de que deve haver perspectivas de mudanças do quadro presente. A escola, como espaço de convivência dos cidadãos, deve ser influenciada diretamente pelos valores que lhe cabem e fortalecido com ações de responsabilidade social que colaborem para a melhoria do ambiente em que se está inserido, criando um espaço onde o coletivo possa ser o alvo das ações de cidadania, onde as diferenças possam ser vistas como mecanismos essenciais a promoção de pessoas e nunca como objetos de discriminação ou preconceito. O termo cidadania, no seu sentido mais lato, é compreendido aqui não como um conjunto de direitos e deveres que cada pessoa tem num estado civil, mas, além disso, como a constituição do coletivo, de práticas que ultrapassam o campo do eu, do individuo, que se prolongue ao ser coletivo, da solidariedade de cada grupo.
Assim, percebe-se a importância de uma gestão mais estratégica, pela qual o gestor ultrapasse o papel de mero espectador, passando a ser, um conselheiro e facilitador das decisões em todos os níveis da organização, reconhecendo-se assim, como o estrategista chave da organização como um todo. Ora, através de uma gestão estratégica, a escola, conjuntamente com os demais membros da organização, tem a possibilidade de estruturar de forma sistemática suas ações, possibilitando a inserção de práticas socialmente responsáveis, e a melhoria da qualidade, tanto do ensino como do relacionamento com a comunidade, uma vez que, isso irá possibilitar uma reflexão acerca do papel que cada indivíduo pode e deve exercer na sociedade.
REFERÊNCIA BIBLIOGRAFICA
COLOMBO, Sônia Simões. Gestão Educacional: uma nova visão / organizado por Sônia Simões Colombo ... [et. al.]. – Porto Alegre: Artmed, 2004.
FERREIRA, N. S. C. GESTÃO DEMOCRÁTICA DA EDUCAÇÃO PARA UMA FORMAÇÃO HUMANA: conceitos e possibilidades. Em aberto, Brasília, v. 17, nº 72, p. 167-177 – fev-jun, 2000.
GADOTTI, Moacir. Escola Cidadã, 6ª ed. – São Paulo: Cortez, 2000.
MELO NETO, Francisco Paulo de. Gestão da Responsabilidade social corporativa: o caso brasileiro. – Rio de Janeiro: Qualitymark Ed., 2001
SAMISTRARO, Ires; RIBEIRO, Rosane Santos. Implementação do planejamento estratégico nas instituições de ensino: a percepção do corpo diretivo de uma escola privada in Opinio: revista do Centro de Ciências Econômicas, Jurídicas e Sociais / Universidade Luterana do Brasil. – N. 1 (jan/jun. 1998) – Canoas: Ed. ULBRA, 1998.
VEIGA, Ilma Passos Veiga. Projeto Político Pedagógico da Escola: uma construção possível. Campinas, SP: Papirus, 1995.
FONTE: http://sulenir.blogspot.com/2010/02/planejamento-e-responsabilidade-social.html
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