Ex-bispo da diocese de Uberlândia aborda temas polêmicos, como corrupção e mal uso do dízimo
Marcelo Calfat
Repórter
Jornal Correio de Uberlândia
Atualizada: 07/03/2010 - 15h33min
Média (1 votos)
Alterar o tamanho
do texto
Com o tema “Economia e Vida” e o lema “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”, a Campanha da Fraternidade Ecumênica 2010 traz à tona a discussão a respeito da economia e da relação com Deus. Segundo dom José Alberto Moura, ex-bispo da Diocese de Uberlândia e atual arcebispo da Arquidiocese de Montes Claros, a campanha traz o sentido bíblico do dinheiro para o ser humano. “A economia é uma coisa válida, necessária para o desenvolvimento humano, mas tem que ser usada com ética, sem corrupção ou desonestidade e sem acúmulo que provoca injustiças, deixando, às vezes, grandes parcelas sem o efeito do desenvolvimento econômico.”
Dom José Alberto é integrante da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e o único representante da Igreja Católica no Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), órgão responsável pela escolha do tema da campanha deste ano. O Conselho é formado por seis igrejas: Igreja Católica Apostólica Romana, Igreja Cristã Reformada, Igreja Episcopal Anglicana do Brasil, Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Igreja Sirian Ortodoxa de Antioquia e Igreja Presbiteriana Unida.
O bispo falou ao CORREIO de Uberlândia, por telefone, e abordou temas relacionados à Campanha da Fraternidade: economia, corrupção na política e uso indevido de arrecadações por meio do dízimo.
Qual a participação do senhor na escolha do tema da Campanha da Fraternidade 2010?
Eu ajudei a escolher, porque a CNBB resolveu abrir, a partir de 2000, na celebração dos dois milênios e jubileu do nascimento de Jesus, para que outras igrejas cristãs não católicas pudessem participar desta campanha. Então se fez a campanha ecumenicamente em 2000, 2005 e neste ano. Eu sou membro da diretoria do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic), composta por seis igrejas, e sou o único representante da Igreja Católica. Foi o Conic, este ano, que escolheu, não a CNBB. Em geral, as Campanhas da Fraternidade têm temas escolhidos pelo menos dois anos antes. E esta escolha se dá por meio da CNBB, com promoção das comunidades que pedem o tema. O tema mais pedido é aquele escolhido. Também na CNBB eu tenho ajudado a escolher o tema, pois sou presidente da Comissão para o Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso da CNBB.
Qual o objetivo da campanha deste ano?
O tema é “Economia e vida” e o lema “Não podeis servir a Deus e ao dinheiro”, focalizando o sentido cristão e o sentido bíblico daquilo que é a economia. A economia é uma coisa válida, necessária para o desenvolvimento humano, mas tem que ser usada com ética, sem corrupção ou desonestidade e sem acúmulo, o que provoca injustiças, deixando, às vezes, grandes parcelas sem o efeito do desenvolvimento econômico. Então é preciso que se atente a este valor da economia, que não é a finalidade em si, mas é o instrumento que deve ser de valia para toda a população. E de modo especial para quem é deixado de lado. Então a campanha deste ano visa a ser educativa para formar uma consciência ética para o uso da economia pela sociedade, seja pelas pessoas em particular, seja por organismos particulares, seja pela política e todos os órgãos públicos.
Quais os resultados das campanhas anteriores?
As Campanhas da Fraternidade, em geral, têm sido muito educativas para formar uma mentalidade de altruísmo, de se pensar conforme o tema focalizado naquilo que é o bem das pessoas, o bem da sociedade, o bem do meio ambiente.
Desde quando existe a Campanha da Fraternidade? Onde ela foi criada e por quê?
Neste período da Quaresma, de preparação à Páscoa, se coloca historicamente, no cristianismo, o sentido da penitência, da oração e da caridade. Então, dom Helder Câmara, que era bispo auxiliar no Rio de Janeiro, há cerca de 47 anos, pediu para o povo fazer, durante a Quaresma, esta penitência. E aquilo que fosse o fruto da penitência, economicamente falando, deveria ser oferecido para ajudar os pobres. Isto se desenvolveu e até hoje a igreja faz a Campanha da Fraternidade. Mas a campanha se desenvolveu mais com o intuito de refletir sobre temáticas relacionadas ao interno da igreja e também ao social, para se criar uma mentalidade que olhe pela causa da comunidade e dos outros.
Na opinião do senhor, qual foi a Campanha da Fraternidade de maior repercussão e a mais inexpressiva?
Eu acredito que tenha chamado muito a atenção a campanha contra as drogas [2001]. A de menor repercussão talvez fosse a que tratou da habitação [1993].
Na avaliação do senhor, qual é o maior problema que o Brasil enfrenta hoje?
O problema que mais vejo hoje é o ético na convivência social. É preciso que tenhamos uma dimensão do sentido de tudo, da política, da economia, das prioridades humanas, como a educação, a assistência à saúde, a segurança e condição de trabalho para uma vida mais digna para todos.
De que modo o senhor analisa a questão da corrupção na política brasileira, como o caso recente do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda?
É preciso que a sociedade aprenda a lição para não ser corrupta e não eleger corruptos, avaliando bem e com espírito de discernimento para o voto. Precisamos crescer nesta dimensão para darmos o voto cidadão. Estes percalços, estes maus exemplos devem ser banidos da sociedade. Inclusive nós, unidos à Igreja Católica e a outros organismos, como a OAB, e o Ministério Público, o movimento contra a corrupção eleitoral, que já tem 1,5 milhão de assinaturas, para a confecção de uma nova lei contra a corrupção. Já existe uma lei sobre o assunto, a Lei nº 9.840/99, contra a corrupção, mas vamos criar uma nova para melhorar mais ainda. É a chamada “Lei da Ficha Limpa”, para que evitemos que corruptos sejam eleitos para cargos públicos. Isso vai melhorando, temos que acreditar no melhor posicionamento do povo, que vai aprendendo cada vez mais a votar com consciência e responsabilidade.
Falando da campanha, que trata da economia, o que países ricos ou em desenvolvimento, como o Brasil, devem fazer para ajudar países extremamente pobres, como o Haiti?
Essas uniões de países, chamados G-20, G-8 e outras, têm uma responsabilidade muito grande de formar uma nova consciência da relação entre os povos. As pessoas de consciência devem levar este espírito de solidariedade aos países. Inclusive já houve no passado o perdão de dívidas e isso pode ser feito ainda, mas é preciso que se lute, que se travem discussões e que nessas reuniões e fóruns internacionais se crie uma nova mentalidade. Isto ajuda a pressionar os países mais desenvolvidos para que colaborem com o bem de outras nações. E no caso do Haiti, já se falou e deve-se colocar em prática o perdão da dívida. Então é preciso que formemos uma consciência internacional de ajuda mútua.
Como o senhor analisa o tema da Campanha da Fraternidade deste ano em relação à Teologia da Prosperidade?
A Teologia da Prosperidade é uma deturpação do ensinamento bíblico a respeito da relação do ser humano com Deus. Há líderes religiosos que pregaram esta teologia no sentido de as pessoas darem o dízimo e exigirem de Deus qualquer coisa quanto a prosperidade. O dízimo tem outro sentido. É uma maneira de a pessoa agradecer a Deus por tudo que se recebe para ajudar a causa da comunidade, e não para o enriquecimento de alguns líderes religiosos. Claro que eles têm direito à sua manutenção, mas não é a focalização da teologia, assim chamada, da prosperidade, que faz com que as pessoas pensem só no lado econômico e na saúde física. É como disse Jesus: “não adianta a pessoa vir a ganhar o mundo inteiro se perder a vida eterna”. Então a economia, a saúde e tudo mais são instrumentos para serem usados para ajudar a pessoa e todos em um compromisso social. Mas querer buscar vantagens para si no sentido somente da prosperidade é desfocalizar o sentido bíblico da vida e do desenvolvimento humano.
O que o senhor espera com a campanha deste ano?
Espero que a campanha traga uma reflexão que ajude não só a igreja e religiões, mas contribua de forma ética com a sociedade. Para que a economia não privilegie apenas a elite e grandes banqueiros nem seja usada como finalidade por um país, deixando grande parte sem assistência à saúde, sem a devida educação, sem segurança, sem reforma agrária. É preciso que se focalize a economia para ajudar o ser humano, não para ajudar um país a se sentir desenvolvido, mas com grandes parcelas passando a necessidade.
Do que vai tratar a Campanha da Fraternidade 2011?
Será algo relacionado ao meio ambiente, já tratado no passado, mas com um novo enfoque das necessidades atuais em defesa deste setor.
Nenhum comentário:
Postar um comentário