Jean-Jacques Annaud
Há 80.000 anos, a sobrevivência do homem, pelas vastas regiões inexploradas, dependia da posse do fogo. Para os nossos ancestrais, o fogo era objeto de grande mistério, visto ninguém ter o domínio da sua criação. Tinha de ser roubado à natureza e mantido aceso, protegido do vento e da chuva e afastado das tribos inimigas. Era um símbolo de poder e um meio de sobrevivência. A tribo que possuísse o fogo, possuía a vida.
O homem inicia então uma busca para encontrar e produzir o elemento mais importante e indispensável à sobrevivência, o fogo. Sua descoberta é apresentada como pretexto a uma viagem que levará ao encontro do conhecimento e da própria sensibilidade humana.
Como tecnologia de transformação da matéria, o fogo é muito provavelmente o primeiro recurso incorporado ao cotidiano da nossa espécie, servindo de meio de defesa, aquecimento, cozimento, iluminação etc. Como mecanismo de defesa, o fogo pode ter contribuído para fixar o homem no chão, que poderia assim deixar as árvores como refúgio noturno ou quando da eminência de algum ataque. O fogo serve também como fonte de aquecimento e iluminação de ambientes, tornando-os mais agradáveis nos períodos de inverno e permitindo o desenvolvimento de hábitos noturnos dependentes da visão. Mas, a capacidade de cozer alimentos talvez tenha sido a experiência de controle refinada de processos que associou-se mais decisivamente a outros processos sócio-culturais de alto valor para a organização da humanidade.
A diversidade de relações estabelecidas pelos coletivos com essa tecnologia em particular é um bom exemplo dos antagonismos inerentes aos processos desencadeados pela tentativa da humanidade de dominar os fenômenos naturais e subjugá-los aos padrões sócio-culturais construídos. O desenvolvimento de técnicas para acessar e controlar fenômenos é tradicionalmente reconhecido como fator de progresso científico e de acúmulo de conhecimento e guarda estreitas aproximações com as normas sociais. Deve-se observar a estreita correlação entre os desenvolvimentos de técnicas, e nesse sentido do conhecimento científico, e as mudanças de comportamento humano. Nessa medida, a tecnologia do fogo, e de alguma maneira o conhecimento científico a ela atrelado, deve ser reconhecida como um fenômeno sócio-culturalmente condicionado, o que impede a desconsideração de fatores históricos e culturais quando se deseja aprofundar o seu entendimento pelo sujeito ou grupo social.
Baseado na obra do escritor J. H. Rosny Sr., o roteirista Gérard Brach se juntou a Jean-Jacques Annaud para levar às telas este pequeno épico que tem como tema principal a descoberta do fogo. Toda a história é movimentada somente pelas ações dos personagens e pela linguagem corporal dos mesmos.
Há 80 mil anos atrás, uma tribo de ancestrais humanos que depende do fogo para proteção e aquecimento acidentalmente tem sua chama extinta. Assim, 3 membros da tribo se separam do restante do grupo e partem em busca de uma nova chama. No caminho eles passam pelos mais variados problemas e parecem ganhar mais consciência e razão a cada novo obstáculo superado. Há inclusive o envolvimento de um deles com uma fêmea de outro bando.
Os atores que interpretam os primatas dão shows de atuações. A linguagem corporal das tribos, desenvolvida por Desmond Morris, é a única ferramenta da qual os atores dispõem para se expressarem. O resultado é altamente verossímil e digno de aplausos.
“A Guerra do Fogo” é quase um documentário de antropologia. Apesar de haver uma história concreta e bem-estruturada, Annaud também abre espaço para o estudo do comportamento dos homens pré-históricos. São notáveis, por exemplo, as diferenças entre as 2 tribos principais. Uma parece ter uma linguagem oral mais desenvolvida, com sons mais articulados, além de dominar a criação do fogo. A outra é marcada por seus grunhidos e gritos e pela ignorância com relação às técnicas de criação do fogo.
São notáveis também a violência e a hostilidade existente entre uma tribo e seus inimigos e a curiosidade com relação ao sexo, que é mais acentuada na tribo mais desenvolvida. Não se sinta estranho se você perceber que, mesmo após 80 mil anos, pouca coisa mudou.
O filme também acerta ao mostrar os membros da tribo menos complexa adquirindo conhecimento e razão com o passar do tempo. No final, inclusive, há até uma cena que sugere a “descoberta do amor” entre um macho e uma fêmea. Além de tudo isso, o filme de Annaud também permite várias analogias com o mundo atual.
Sem dúvidas, “A Guerra do Fogo” é um filme original e peculiar, que merece ser visto por aqueles que desejarem ver algo realmente diferente de tudo o que já foi feito no cinema.
Referências Bibliográficas
[1] Sítio “Cinema em Casa”, Seção “Críticas: A Voz do Cinéfilo”, comentários de Diego Sapia Maia (http://www.cinema.art.br)
[2] Sítio “DVD Mania”, Seção “Filmes & Filmes - Análises” (http://www.dvdmania.co.pt/Analisesf/ guerredufeu.html)
[3] Sítio “Laboratório de Pesquisa em Ensino de Química e Telemática Educacional” da Universidade de São Paulo (http://pauling.fe.usp.br/artigos/combustao)
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